Vida de DJ

agosto de 2014

por gerente

Creditos: 
Fotógrafo: Tom Leal

Duas tribos, dois estilos musicais, dois estilos de vida e dois rolês diferentes com um mesmo fim. Cla Pessoa, DJ de House Music e Jogado, DJ de Hip Hop vivem em mundo diferentes, mas ambos tem a mesma missão. Divertir a galera e não deixar ninguém parado na pista. Cla Pessoa é DJ há cinco anos e sua carreira começou de forma totalmente inesperada. Formada em Moda, resolveu criar uma marca de camiseta e para o lançamento promoveu uma festa. Contratou DJs, mas faltava alguém que abrisse a noite. Uma amiga a convenceu que seria legal se elas mesmo tocassem. Ela achou a ideia absurda, pois não sabia tocar. Alugaram um estúdio para aprender e para a surpresa geral, quando elas tocaram foi a verdadeira animação da festa, enquanto que as DJs conceituadas pagas para tocar na noite deixaram a desejar.

Nesse dia alguns empresários da noite em Santos assistiram ao set da Cla e ela começou a receber convites. Foi chamada pra tocar na saudosa casa de música eletrônica Euro e foi então que ela decidiu estudar para valer e fazer um curso de DJ. Os amigos começaram a chamar e carreira começou a decolar. “Não tem DJ mulher em Santos, acho que por isso não parei de tocar desde o começo. Sempre tive bom relacionamento com as pessoas e isso é esperado de um DJ hoje em dia, não basta só tocar bem, tem que ter carisma e ser promoter também, tem que trazer gente pra balada. Não é vantagem a casa contratar um DJ que não traz público”, revela.

Ela gosta de Deep House, MPB e Indie Rock, mas admite que toca um som comercial na balada. “Eu toco o que as pessoas querem ouvir. Se as pessoas que vão nas baladas daqui querem ouvir na pista o que escutam na rádio, eu quero mais é fazer elas felizes. Esse é meu papel como DJ”, afirma. “Eu escuto vários produtores, fico antenada nos blogs de música eletrônica, sites de venda de tracks e com base em toda essa pesquisa sigo meu feeling do que pode ou não funcionar na pista”, explica. Mas quando ela está de folga e quer sair para se divertir, prefere ouvir um eletrônico mais underground, como rola na D-Edge em São Paulo.

“O DJ tem uma grande responsabilidade, você não pode achar que vai acertar e sim ter certeza. As pessoas tem que se divertir, o bar tem que consumir, a casa tem que bombar, você precisa receber o cachê e contribuir pra tudo isso”, avalia. Ela também faz parte de um grupo de DJs, o Female Angels, que toca mais House de raíz, menos comercial. São três DJs e uma vocalista. O grupo viaja bastante pelo Brasil. Mas não pense que essa vida é só festa. “Não sei o que é ter um fim de semana pra mim há anos. Para marcar uma viagem é muito difícil, preciso reservar um período sem datas agendadas para conseguir tirar umas férias”, conta.  

E não se iluda com o glamour da profissão e com os lugares de alto nível que ela toca. Cla é uma pessoa totalmente pé no chão. “A noite pra mim é totalmente ilusória, uma ilusão que dura algumas horas. Você se veste com a melhor roupa, sai linda, maquiada, mas daqui a pouco você vai acordar sozinha na sua cama, toda borrada. É um mundo de imagem e eu não me iludo com nada disso”. Cla faz questão de cumprimentar da mesma forma todos os funcionários da balada, do faxineiro ao dono. “Não sou estrela, sou funcionária igualzinho a eles e o que me alegra é ver eles se divertindo com meu som também. São trabalhadores que estão na noite loucos para ir embora e voltar para a família, trabalhar a noite é muito sacrificante, então se eu conseguir levar a eles um pouco de alegria é muito gratificante”, afirma Cla. “Sou comum, eu gosto de andar de camiseta e chinelo de segunda a sexta”. Humildade em pessoa, merecedora de todo o sucesso.
Do outro lado da noite temos o Jogado, DJ de Hip Hop há 20 anos. Criado na periferia de Cubatão, não é exagero dizer que o amor ao Rap salvou sua vida. Ele também começou por acaso, ao ver o filme Juice, lançado em 1992 com o lendário rapper e ator Tupac Shakur, que contava uma história que parecia com o que ele vivia na época. “Sempre morei na periferia e andava com um pessoal da pesada. No filme, um dos meninos se interessa pela discotecagem e vira DJ, enquanto os outros acabam entrando pro crime. Ele se deu bem e seguiu carreira e os outros morreram. Foi nesse filme que eu vi que eu tinha uma saída, uma alternativa, uma chance de sair dali”, revela Jogado.

Tudo foi na raça e no improviso. Fã de Hip Hop desde moleque, Jogado começou a tocar em equipamentos emprestados dos amigos. “Nos encontrávamos no bairro Costa e Silva, os DJs da época se juntavam e ficavam tocando, tipo um baile de rua. Poucos tocavam Hip Hop, o hit do momento era Miami”. Essa foi uma grande referência musical para Jogado, além dos ídolos Tupac, Public Enemy, NWA, Run DMC, MC Rain. Mas o que o encantava era tocar discos e grandes DJs o inspiraram como DJ Primo e os americanos Crazy e Vajera.

Ele ficou impressionado ao ver o Grandmixer DXT tocando no Grammy. Foi a primeira vez que um DJ tocou ao vivo com uma banda em um Grammy Awards. “Passou até no Fantástico, chamou atenção de todo mundo. Foi aí que pensei que podia me envolver com banda, aprender a fazer scratch. Fui estudando sozinho, sou totalmente autodidata”, recorda. Ele participou de um campeonato de DJs em 1995 e ganhou. “Enchia o saco dos amigos, ia treinar na casa deles e consegui vencer. Foi aí que ganhei meu primeiro equipamento de DJ, imagina minha felicidade”, conta.

As dificuldades quase o desviaram do caminho, mas a paixão pela discotecagem Hip Hop foi maior que tudo. “Encontrei vários obstáculos, desanimei e fui estudar e trabalhar. Mas não desisti do meu sonho e hoje já toco profissionalmente há uns nove anos”. Há cinco anos está no comando da casa mais Hip Hop da Baixada, o Clube 49, conhecido como Clubinho. Resolveu alugar para fazer festas no pico com um amigo. Trouxe grandes nomes do Rap atual para cantar na casa, como Emicida e Criolo. Na época eram apostas. “Ouvi a primeira Mix Tape do Emicida e decidi apostar nele, assim como com vários artistas que hoje estouraram”, revela.

Hoje a cena do Rap em Santos está bombando. Todo fim de semana tem vários shows, fica até difícil acompanhar. Às vezes tem três boas opções na mesma noite. Muito desse crescimento da cena se deve ao Clubinho, que realmente fomentou a cultura Hip Hop na cidade. Após alguns meses fechado pra reforma, a casa voltou com tudo no último feriado, na festa chamada de O Retorno de Jedi . Estouro! Casa cheia e vibe lá em cima, a cara do Clubinho.      B-Boys dançando, galera fervendo até o amanhecer. A intenção é que voltem à tradição das festas quinzenais.

Tocou cinco anos com o Koala Joe, igualzinho ele viu no Fantástico. Rodou o Brasil com a banda. E hoje sua carreira está muito bem, obrigada. Na semana de nossa entrevista ele tocou pela primeira vez no Galeão em Camburi, além de Torto, Moby Dick, Dom Room e Clubinho. Sim, cinco baladas em uma semana! Mas ele não quer ser rotulado como DJ do Rap. “Sou fã de Black Music, toco várias vertentes. E graças a isso eu acabei levando o Rap a lugares que nunca se imaginaria”. Ele abre quase todos os grandes shows de Hip Hop na cidade. Antenado nas tendências, ele começou a tocar o Trap e o Twerk, estilos americanos que misturam o Hip Hop com Eletrônico. Ligado no que rola mas, com orgulho, fincado nas suas raízes. “Já recebi várias propostas pra tocar Funk e eu não toco de jeito nenhum. Sem essa que DJ é obrigado a dançar conforme a música. Posso até tocar várias vertentes, mas todas dentro do universo do Hip Hop e da Black Music, não vou me vender. Agências já me procuraram pra tocar de tudo e eu recusei. Prefiro voltar a bater marreta em qualquer lugar do que me render a este tipo de coisa”, afirma Jogado. A Revista Zerotreze apoia essa postura!

“Continuo na luta para quebrar barreiras. Tem gente que ainda enxerga o Rap com maus olhos. Minha perspectiva é tocar em cada vez mais lugares levando o Rap para lugares que não são da cena e assim conseguir ir agregando cada vez mais pessoas e classes sociais no Hip Hop”. Essa é a missão.  Sucesso, guerreiro!

 

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