Santos Rock Town

novembro de 2014

por Evelyn Cheida

Não há dúvida que Santos tem o Rock correndo nas veias. A cena começou com força no início dos anos 80 e recebeu shows lendários no extinto Clube Caiçara. Quem viveu e fotografou toda aquela loucura, contou tudo pra Zerotreze. Nossa cidade sempre teve vocação pra muito Sex, Drugs & Rock n’ Roll!

Will Rodrigues, 58 anos, é fotógrafo de Rock há mais de 30, além de empresário e músico. Will é de São Paulo e desceu a serra para prestar vestibular. Chegou para a prova direto de uma festa a fantasia. Só conseguiu chegar porque um amigo muito gente boa o trouxe de carro. “Tinha esquecido totalmente da data do vestibular, estava trêbado quando meu amigo me lembrou e disse que me levaria em Santos. Acordei na porta da faculdade vestido de Zorro. Imagina só se todos me olhavam ou não”, recorda.

Só nesse episódio dá pra sentir a vibe do final dos anos 70 e início da década de 80. Estudou Arquitetura, onde aprendeu fotografia e se apaixonou. Amigo de Tony Bellotto (que também estudou Arquitetura em Santos, com quem teve até banda nos tempos de facú) e do produtor Nico Rezende, com quem teve banda em São Paulo, tinha vários conhecidos no mundo do Rock. Foi quando conheceu Toninho Campos, proprietário do Cinema Roxy, que em 1982 montou a primeira casa de Rock em Santos, o Heavy Metal – o nome não tinha a ver com esse estilo musical e sim com uma revista muito louca da época - no extinto Cinema 1, na avenida da praia. Ali se apresentaram grandes bandas, que na época estavam em início de carreira, como Paralamas do Sucesso, Ultraje a Rigor e Titãs.

Foi quando o Toninho Campos precisou de um fotógrafo.  “Falei que era fotógrafo, mas ainda estava aprendendo. Aí comprei umas paradas mais profissionais e fui aprendendo na raça. Na época era filme, o que eu perdia de foto não foi brincadeira. Fui tentando, errando e aprendendo até acertar”, revela.

“Mas como eu conhecia muita gente na música conseguia algumas regalias, como fotos de camarim, que geralmente os caras não deixam tirar, mas eu conseguia por ser amigo deles”, afirma. “Eu não sabia porra nenhuma de fotografia, via aquele fotômetro com as luzes piscando e ficava louco. Decidi fazer as primeiras fotos de um jeito, depois as dez seguintes de outro e assim fui aprendendo o que funcionava ou não”, confessa.

“Hoje é muito fácil, se vê a foto na hora e já sabe se ficou bom ou não, por isso fotógrafo hoje ganha mal”, analisa.

O Heavy Metal fechou devido a queixas da vizinhança. Foi quando Toninho Campos abriu o Caiçara Music Hall em 1985, no extinto clube Caiçara, em frente ao Quebra-Mar.

“O Heavy Metal e o Caiçara Music Hall foram precursores da cena Rock do Brasil. O cenário Rock n’ Roll era quase inexistente antes disso em Santos, foi o começo da cena nacional na real, em paralelo com o Circo Voador no Rio de Janeiro e a Rose Bom Bom e Pauliceia Desvairada, em São Paulo. Todo sábado tinha show bom de Rock aqui, a agenda que o Toninho Campos fazia era incrível, vinha gente até de São Paulo curtir os shows”, lembra.

Legião Urbana, Lobão, Barão Vermelho, Lulu Santos, Capital Inicial, Plebe Rude, Engenheiros do Havaí, entre outros tocaram neste circuito em Santos. “A pior pessoa de trabalhar era o Renato Russo, que já no início de carreira era super estrela, mal humorado, nervoso e antipático. Era o único que não deixava ninguém entrar no camarim dele, até a própria banda dele tinha que ter um camarim a parte, porque o dele tinha que ser exclusivo”, conta.

“O cara mais querido das mulheres sempre foi o Dinho Ouro Preto, elas iam à loucura! Como pode ver nessas fotos exclusivas, a mulherada jogava sutiã em cima dele e ele vestiu de brincadeira no camarim. Esse sempre foi bem humorado”, informa.

“Todos eram muito loucos, com exceção dos Paralamas. Mas os mais loucos eram Lobão e os caras do Camisa de Vênus. A gravação do último CD deles ao vivo no Caiçaras em 1986 foi foda, nunca vi nada igual. Era muita loucura, os músicos vomitavam atrás dos amplificadores, no meio do show rolando, os caras bebendo na garrafa, saiam, vomitavam e voltavam bebendo, no meio da música, não estavam nem aí. Foi a coisa mais Punk Rock que eu já vi na minha vida”, diverte-se.

“Tudo girava em torno de drogas na época, final de anos 70, início dos 80 era foda. A polícia nem sabia o que era LSD, não era classificada como droga porque eles nem sabiam o que era, enquanto a galera tomava em bateladas. Existia uma relação das drogas com a criatividade, vários músicos que rompiam barreiras e a criatividade voava, isso foi notório desde os anos 60, na fase hippie que teve ícones como Jimi Hendrix, Janis Joplin e The Doors”, avalia.

“Porém em meio a tanta loucura, existia sim uma banda que sempre foi careta, os Paralamas do Sucesso. As exigências deles eram muitas frutas no camarim e jogar futebol com a gente antes do show, no clube, era o time do Paralamas contra o time da galera do clube”, afirma. “Sempre foram muito gente boa, simples e acessíveis”, acrescenta.

 “Mas também tenho algo a dizer em defesa dos loucos. A vida de música na estrada não é fácil, show, viagem todo dia, os caras às vezes usavam pra aguentar o tranco mesmo, senão não conseguiam ficar de pé”, opina. O Caiçara Music Hall teve até shows internacionais, como o da rainha do Punk Rock da Inglaterra, Siouxsie & The Banshees. Mas infelizmente encerrou as atividades em 1987.

“Em 1985 abri minha primeira loja, na galeria A.D. Moreira, onde colocava as fotos dos shows em um mural de cortiça e as vendia”, lembra. “Os anos 70 e 80 foram de mudanças muito radicais que começaram não só no Brasil, mas no mundo inteiro, culturais e políticas. Hoje se usa calça jeans por causa de nós, os hippies. Era uma proposta que se tinha de mudar todo aquele padrão careta”.
Hoje Will além de administrar suas lojas de roupas, fotografa para bancos de imagens, agências internacionais de fotografia, como a Getty Images. Depois da “Era Caiçara”, Will fotografou grandes eventos de música como o saudoso Free Jazz Festival. Fotografou o Peter Tosh no Festival Internacional de Jazz São Paulo-Montreux.

 

“Entraram uns negões bem altos, cheios de dread na cabeça, eu nunca tinha visto aquilo, nem conhecia Reggae ainda. Quando eles começaram a fumar, pensei que era charuto, de tão grande que era o negócio”, risos. “A fumaça começou a entrar no cabelo dele e quando ele levantou a cabeça pensei, cara, essa é a foto! Mas quando posicionei a câmera ele disse com aquele vozeirão: Hey, no picture, man!”, lamenta.

Will já fotografou nomes como B.B. King, Eric Clapton, Jeff Beck, Deep Purple, ZZ Top, entre outros. Mas a fase que guarda com mais carinho foi mesmo esta dos anos 80. “Foram poucos anos, mas intensos e maravilhosos. Como diz Lobão, é preferível viver dez anos a mil do que mil anos a dez”.

Conheça mais do trabalho de Will em: www.willbrasil.com

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo