Praticagem

janeiro de 2019

por gerente

Ser prático é...padecer em meio ao amor e ao perigo

Conduzir um navio não é tarefa para qualquer motorista

 

Santos é incrível. Dentre as mais diversas paisagens quem mora ou passeia pela orla da Ponta da Praia costuma presenciar um dos mais maravilhosos cenários que a cidade pode oferecer. Costumeiramente uma buzina anuncia o início do espetáculo. É quando ele surge. Gigantesco! Traçando sua linha nas águas do estreito canal do porto. E então todos, santistas ou turistas, param para observar, fotografar, registrar cada detalhe da passagem dos navios de cruzeiros. Um espetáculo complementado pelo brilho do mar, pelo sol ou pela lua.

O canal do porto é um espaço marítimo de cerca de 200 metros entre Santos e Guarujá. É por ele que dezenas de navios entram e saem diariamente. Se dirigir um carro, uma moto, às vezes até mesmo uma bicicleta, sem nenhum acidente pode parecer uma tarefa difícil, imagina conduzir um navio?!?! Pode piorar? Pode. Leve em consideração que um navio pode ter quase 50 metros de largura e 335 de comprimento. Complicou, né?! Pode ficar ainda mais difícil? Pode. Se pensarmos em condições marítimas ruins perceberemos que este é um trabalho bastante meticuloso e perigoso. Enquanto alguns se esbaldam com a beleza do cenário tem alguém suando bastante para manter tudo saindo nos conformes: o cara que está dirigindo a embarcação. O prático.

A ZeroTreze conversou com Fábio Mello Pontes, que está às vésperas de completar 50 anos atuando como prático. Já foram mais de 29 mil manobras realizadas por ele que se interessou pela profissão, inicialmente, para estar mais perto da família.

Eu era Oficial de Náutica da Marinha Mercante Brasileira e ficava muito tempo longe de casa. Essa foi a principal motivo que me levou a pensar na praticagem. Mas eu sempre gostei de manobrar embarcações antes de ser prático. O fazia e o faço com muito prazer.

Para ele, o momento de passagem do navio pelo Porto de Santos também é sentido com emoção.

É um espetáculo muito bonito para qualquer pessoa. Vejo muitos pedestres e automóveis parando para observar a passagem de grandes navios. Enquanto estou comandando a travessia estou atento a navegação. Também aprecio a paisagem, mas sempre atento ao que estou fazendo

Neste ano um grande navio desgovernou quando entrava no porto e raspou nas instalações da balsa no lado de Guarujá.

Nós costumamos dizer que a presença do prático não evita 100% a ocorrência de um acidente. Mas, com toda certeza, assegura uma minimização dos efeitos daquele acidente que não foi possível evitar. De fato, neste acidente, o prático pode ter participação na ocorrência. Mas percebeu o que ia acontecer e tomou algumas providências que fizeram com que o navio não batesse de bico nas instalações do serviço de balsa, e sim, passasse raspando muito de leve.

A profissão foi regulamentada em 1908 quando D. Joao VI chegou ao Brasil com a família real. Mas para se tornar um prático não basta querer. E se você reclamou das aulas teóricas para conseguir tirar a CNH, se prepara.

Práticos são profissionais licenciados pela autoridade marítima brasileira que, depois de atravessarem e serem aprovados em um processo seletivo para o acesso à formação, e qualificados como praticantes de prático, passam de doze a dezoito meses em treinamento intensivo para aprender na prática o exercício da profissão.

Lembra da baliza? Então. Nada a ver.

Aprendemos a executar manobras de navio atracando, desatracando, navegando, fundeando, mudando de bordo, de atracadouro, de ponto de atracação. Quando esse período é concluído, a autoridade marítima (Capitania dos Portos) notifica a Marinha de que ele está pronto para ser submetido a um exame para que aquele praticante passe para a categoria de prático. Somente aí inicia realmente a profissão.

 

Muito se fala sobre os salários dos sonhos que a profissão proporciona. Mas, todos os anos, ao menos três práticos morrem no exercício da função.

Eu mesmo já caí no mar algumas vezes. Quando o mar está muito agitado o exercício da profissão se torna extremamente difícil, perigoso e, ocasionalmente, impossível. O momento de entrar e deixar a embarcação são os mais perigosos. A operação é feita da lancha para a escada de quebra peito, que é uma escada de corda com degraus de madeira. Quando vamos desembarcar do navio nesta escada é uma situação delicada que requer muita agilidade por parte do prático.

Se você curtiu a ideia (e tem coragem) de ser prático, pode procurar pela NORMAM, Normas da Autoridade Marítima, e encontrar mais detalhes sobre como se formar nesta profissão. ZT

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