Picuruta Salazar

janeiro de 2019

por gerente

Maior nome santista no surf relembra trajetória e fala sobre a cidade onde aprendeu a surfar e formou sua família

 

os 57 anos Alexandre Salazar Junior, muito mais conhecido como Picuruta, coleciona histórias incríveis para contar. Ao todo são (nada mais, nada menos do que) 169 títulos de campeonatos de surf por todo o mundo. Não! Você não leu errado. São cento e sessenta e nove mesmo!!! E é bom deixar claro que este número se refere apenas às vitórias em primeiro lugar. Além de ter sido consagrado por dez vezes campeão brasileiro, três vezes campeão mundial de longboard profissional, campeão mundial do ISA World Surfing Games (que é considerada a olimpíada do surf) e campeão mundial de pranchinha, o lendário surfista registrou o recorde de surfar a onda mais longa da história, desfrutando durante 37 minutos (algo em torno de 12 km) da pororoca que acontece no Rio Araguari, no Amapá.

    Aos oito anos, na praia de Santos, onde nasceu o surf brasileiro, Picuruta teve a oportunidade de subir numa prancha.

    Quando eu e meus irmãos éramos moleques costumávamos ir à praia para brincar, jogar bola. E sempre levávamos um pranchão antigo também, muito pesado, que era do meu pai. Um dia meu irmão mais velho, Lequinho, me colocou em cima da prancha pela primeira vez. A emoção foi tão grande que aquele foi apenas o começo. Foi fantástico ficar em pé na prancha! Tanto que eu nunca mais parei,     relembra.

 

        Se até hoje o surf e os surfistas ainda enfrentam muito preconceito social, entre as décadas de 60 e 70 o cenário era ainda pior.

Éramos muito marginalizados. O surf não era reconhecido. Tirando meu pai e mãe, nem minha família conseguia fugir do preconceito. Achavam que era um esporte de vagabundo, coisa de quem não quer fazer nada, só ficar na praia. Mas graças ao apoio dos meus pais e incentivo dos meus irmãos nossa história provou justamente o contrário.

    Relembrar os tempos passados comprova que algumas coisas mudaram, e muito.

  Quando eu era moleque não tinha condições de ter uma prancha. Então eu ficava tomando conta dos pertences dos surfistas da época. E quando eles saíam do mar sempre me deixavam entrar e pegar umas ondas com as pranchas deles.

    A situação despertou um lado empreendedor nos irmãos que passaram a fabricar suas próprias pranchas utilizando o bloco das antigas.

A gente pegava pranchas usadas, raspava, usava o ralador de côco da minha mãe, e assim começamos a produzir as pranchas.

    Anos mais tarde o irmão do meio de Picuruta, Almir Salazar, se tornaria um shapper mundialmente reconhecido. Foi com as pranchas dele que Picuruta venceu a maioria das competições.

 

    O palco da parte mais importante da vida do surfista é o tradicionalíssimo Quebra-mar, local que Picuruta se refere com extremo carinho.

O Quebra-mar é o quintal da minha casa. Eu frequento há 50 anos. Já vi muitos campeonatos, conheci muita gente, observei atentamente a mudança no mar, das ondas.... Aquilo ali pra mim é tudo! É onde conquistei tudo o que tenho na vida. Onde construí minha família, onde tenho minha escola, onde encontro meus amigos. É onde eu me sinto feliz.

    E parece que a história se repete. Picuruta teve três filhos. Todos homens. Todos surfistas. Caio, Leco e Matheus. Todos apaixonados pela arte de manobrar sobre as ondas! Leco, inclusive, é campeão mundial de stand up. Já Matheus escolheu viver no Havaí.

    Pai coruja, ele não esconde o orgulho e a satisfação.

Ver meus filhos seguindo nossos caminhos, meu e de meus irmãos, é fantástico. Nunca obriguei eles a isso. Eles que sempre acompanharam a gente e creio que se identificaram também. Eles estão fazendo o que gostam e com amor, que é o mais importante.

 

    Em meio a tantos títulos que abrilhantam a trajetória do surfista deveria ser difícil escolher aquele que mais marcou sua vida. Mas ao ser questionado, Picuruta não pensa duas vezes.

Meus irmãos sempre foram muito importantes para mim. E o Lequinho, que foi meu maior incentivador no surf, tinha falecido. Eu estava correndo o Nyasia Tribuna, um campeonato brasileiro que aconteceu ali na praia do Maluf no Guarujá. E eu queria muito ganhar aquele campeonato para poder homenageá-lo. A vontade foi tanta que consegui. Venci e pude homenagear meu irmão. É a vitória mais marcante da minha carreira.

Mas teve uma outra pergunta com resposta fácil (e desta vez inesperada). Ao ser questionado sobre qual o melhor lugar para surfar (e surpreendendo esta jornalista que sempre ouviu o contrário), Picuruta não tem dúvida. Ao contrário daquilo que muito surfista gosta de dizer, o super campeão é categórico.

“Gosto muito do Havaí. Mas o lugar que eu mais gosto de surfar é Santos. Tem muito surfista que critica as ondas daqui, mas quando você quer ser um bom surfista,  não tem que ficar exigindo da onda. Os grandes surfistas aprenderam a surfar em ondas ruins. As pessoas reclamam muito ao invés de se dedicar, aprender. Não importa qual o tipo de onda. Quem quer ser surfista profissional, por exemplo, tem que saber que, num campeonato, se a onda estiver ruim ele terá que competir da mesma forma”.

O surfista relembra a trajetória de Kelly Slater, onze vezes campeão mundial, nascido em Cocoa Beach, onde não tem onda. Até o brasileiro Fabio Gouveia entrou na comparação. Segundo Picuruta, na Paraíba (local onde Fabio Gouveia nasceu) só tem vento e nada de onda.

 

“Eu e meus irmãos, sabendo da dificuldade de entrar nas ondas de Santos (afinal estamos numa baía), e com o objetivo de aprender a surfar em qualquer tipo de onda, passamos a ir para o Guarujá. Na praia de Pernambuco aprendemos a surfar ondas mais "buraco" e menos cheias. Mas a onda de Santos é uma das melhores do mundo para iniciar. Fraca, cheia, que te dá condição de aprender, subir com tranquilidade e desfrutar”.

E para quem não sabe, aí vai uma informação bem interessante: quando o surf surgiu no Brasil, na década de 30, por meio de nomes como Osmar Gonçalves, e Margot e Thomaz Rittscher, as primeiras ondas foram surfadas no bairro do Gonzaga. Pois é. No Gonzaga! Para quem não tem muito contato com surfistas, a gente explica: segundo muitos deles, quanto mais afastado do Quebra-mar, piores são as ondas. Pelo menos quando não tem ressaca.

E já que estamos falando sobre as características do universo do surf não podemos deixar de perguntar sobre uma realidade nada positiva: o localismo. Quando um surfista que sempre pratica no mesmo local se sente desrespeitado de alguma maneira por outro que não seja frequentador daquele espaço, pode acontecer deste segundo surfista ser mandado embora da praia.

Localismo existe em qualquer lugar do mundo. Por exemplo, no Havaí há onda boa durante apenas seis meses do ano. Imagina o cara que mora lá, que fica esperando essa época chegar e, de repente, o mundo todo vem surfar aquela onda. Às vezes os caras não te respeitam e acaba tendo briga.

 Quem pensa que no Brasil isso não existe, só porque nunca viu, está enganado.

    Aqui no Quebra-mar mesmo tinha isso no passado. Hoje está mais tranquilo. Eu não concordo. Não tinha que existir isso. Acho que a tribo do surf tem que estar sempre unida.

Picuruta nunca trabalhou com nada que não fosse relacionado ao surf. Mas não esconde uma segunda paixão, compartilhada com a esposa Karim, com quem divide a vida há mais de 30 anos. Nas horas vagas, o campeão vence outros desafios.

Quando estou fora do mar meu hobby paralelo é cuidar de animais. Tenho muitos bichos. Calopsita, cachorro, gato, sagui, louro. Eu e minha esposa gostamos muito de ajudar bichos de rua com tudo que estiver ao nosso alcance.

 

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