Parafina, um dog mais que especial

novembro de 2014

por Evelyn Cheida

Se você acha que é atleta, pense de novo. O cachorro Parafina, local do Quebra-Mar, todos os dias corre em média 10 km, nada e surfa. Acaba de gravar um comercial de TV para uma famosa marca de macarrão instantâneo. Há um boato que diz que ele é a reencarnação de um bombeiro. Independentemente de sua crença, depois de ler essa matéria vai ver que não é difícil acreditar nessa tese. O Fina é um dog mais humano que muita gente por aí. Pura vibe! A Zerotreze não podia deixar de contar essa incrível história.

Parafina, um cachorro muito especial, apareceu no Quebra-Mar há cerca de seis anos, época que começaram a urbanizar o píer. Acredita-se que ele tinha um ano na época. Fez uma toca no meio do jardim e um pessoal ali do bairro do José Menino, que adora animais, começou a cuidar dele também.

“O Parafina sempre foi um esportista. Passavam grupos aqui que correm até a Ilha Porchat ou até a Ponta da Praia e ele corria com eles. Corre com policiais e militares e ainda vai na frente, liderando o pelotão ao lado do capitão. Já tivemos que buscá-lo várias vezes no 2º BC de São Vicente, porque ele corre com os militares até lá. Foi então que ele começou a acompanhar os bombeiros aqui do Posto 1 também. Eles fazem o treinamento de manhã e o Parafina começou a acompanhar eles nos treinos todos os dias”, afirma Augusto Martins, professor de Surf na escola do Picuruta Salazar. Augusto surfa no emissário desde seus sete anos de idade e foi surfista profissional. Há três anos surfa todos os dias com seu melhor amigo, o simpático vira-lata Parafina.

Segundo o salva-vidas Rafael Sotelo, o dog corre com eles todo dia uma média de 10 km, além de nadar junto com eles. Foi aí que ele começou a dormir no posto, há uns três anos. “Só não dorme lá quando vai pra casa com o Augusto, ele tem verdadeira adoração por ele”, revela.

A entrevista da Zerotreze com Augusto e seu inseparável amigo Parafina, foi marcada para as 14 horas de um belo dia de sol. Notei que o dog estava meio sonolento. “É que essa hora ele costuma estar dormindo lá na minha casa. Surfamos de manhã, aí levo ele pra casa, almoçamos e depois ele tira um cochilo. Aí voltamos às 15h30 pra eu dar aula novamente”, explica Augusto. Perguntei se ele nunca pensou em levar ele pra morar de vez na sua casa. “Penso sempre, mas ele é tão livre e tão feliz aqui! Ele gosta de brincar com as tartarugas marinhas, com os biguás, ir até a ilha Urubuqueçaba, correr com os bombeiros, ele gosta de ter liberdade”, acredita.

“Ele conhece bem minha rotina. Quando ele dorme em casa, nós dois acordamos cedo, às 6h da manhã, tomamos um café e vamos pra praia surfar. Ele que manda, no fim do dia, quando ele quer ir pra minha casa ele já cola em mim, senão tá afim, vai pro posto”, relata.

Como começou este amor dele pelo mar? “Ele começou a fazer tudo com os bombeiros e pegou paixão pelo mar entrando de bote e jet ski com eles. Eu estava sempre aqui dando aula e ele ficava com a gente, aí um dia estava com a prancha de stand up e resolvi chamar o Parafina. Ele subiu na maior naturalidade, acostumou e começou a querer ir sempre. O que ele mais gosta de fazer é ficar olhando o mar e procurando as tartarugas, quando vê uma fica brincando, pulando, às vezes até me derruba da prancha”, conta cheio de carinho em sua expressão.

Se Augusto não estiver no Quebra e Fina quer surfar, ele procura o Picuruta. “Se ele também não estiver ele procura os filhos dele, é um barato. E quando está muito afim mesmo se nenhum de nós estivermos aqui, ele escolhe qualquer pessoa que esteja com uma prancha grande e já sai pulando em cima”, diz.

E quanto ao boato que rola por aí? Dizem que o Parafina é a reencarnação de um bombeiro! “Ele é muito próximo aos bombeiros, treina com eles todas as manhãs, vai na frente nas corridas, dorme no posto dos salva-vidas... por isso que eu digo que ele não é meu, ele é da comunidade. O pessoal que vende milho, bebida, dos carrinhos daqui do Quebra, nós da escolinha de Surf, moradores das proximidades, todos cuidamos dos animais daqui, incluindo o Parafina. A diferença é que ele me escolheu para ser seu melhor amigo. Amo os animais, acolhi ele, pra mim é uma honra”, declara. Marcelo Guerrero, fotógrafo e morador do Quebra, confirma a paixão de Fina por Augusto.

“É só perguntar pro Parafina: Fina, cadê o Augusto? Ele sai procurando feito louco, abana o rabo, é incrível, ele ama o Augusto”, afirma.

“Mas o fato é que ele realmente adora correr e nadar com os bombeiros e estar sempre com eles. Ama o mar, surfa comigo todos os dias, não tem um dia que ele não queira entrar no mar, só se o tempo estiver muito feio, aí geralmente levo ele pra minha casa. Quando vejo que vai entrar uma frente fria, já vou buscar ele. Às vezes ele fica até três horas na água comigo, o bicho tem alma de surfista mesmo”, afirma.

Picuruta, sua esposa Karim Salazar, Augusto e outros locais que trabalham ou vivem ali, sempre cuidaram dos animais, compram ração, alimentam, dão banho, levam no veterinário se for preciso. Augusto faz tudo pelo Parafina. Alguns veterinários dão apoio, como a Carol Haddad. Agora quem disponibilizou ajuda foi o Felipe Pompeo, que ofereceu tratamento completo e já o presenteou com um colete salva-vidas. “Nos dias de ondas grandes, gosto que o Parafina use essa proteção”, preocupa-se Augusto.

“O Parafina já chegou invadindo nossos corações, um cachorro maravilhoso, fico muito feliz com a atenção que ele me dá, sou muito grato pela recepção que ele faz quando chego na praia. Ele costuma me esperar no jardim, onde ele sabe que eu paro meu carro. Às vezes ele me confunde com outra pessoa e me contam que ele volta tristão quando percebe que não sou eu. Ele já faz parte da minha vida, estaremos juntos até o final da vida dele ou da minha, vou estar sempre olhando por ele, cuidando dele”, afirma Augusto. “O Parafina uma vez foi levado por uma senhora pra casa dela, todo mundo ficou triste, o Marcio Saúva, dono de carrinho de bebida, foi buscar ele, assobiou, ele já pulou da janela e subiu no carro na hora. O Márcio também cuida bastante dele”, revela.
Augusto tem dois gatos e quatro cachorros em casa, todos resgatados das ruas. “Todos se dão bem com o Fina, até os gatos. No começo se estranharam, mas depois ficaram amigos”, conta. “A harmonia dos animais faz muito bem pra gente. Infelizmente muita gente ainda é ignorante, não gosta de animais, mas os mais sábios sabem que quando eles convivem com a gente, todos ficam mais felizes”, garante.  

No começo de julho, Parafina foi convidado a participar de um comercial de TV, gravado em Ubatuba. “Ele deu show na praia. Como a onda lá quebra mais próxima da areia, quando a prancha chegava ele já pulava na areia, o pessoal gritava, batiam palma, enlouqueceram com ele”, conta. “Passeou com os cachorros locais, subiu os morros, ficou na pousada com uma cama só pra ele no mesmo quarto que eu, ficava deitado assistindo o canal Off comigo, tratado como rei por todos os funcionários, ele se divertiu mais que qualquer um”, informa Augusto.

Parafina recebeu cachê como qualquer ator ou modelo. Com todas as despesas pagas, Augusto e Parafina foram buscados com motorista particular em casa e segundo Augusto, o cachê foi muito bom. “Esse dinheiro é muito bem-vindo pra quem cuida dos animais, compramos ração e medicamentos não só pra ele, mas pra todos os animais aqui do Quebra-Mar”, afirma.

Alguns devem se perguntar: mas cachorro na praia pode? Augusto lamenta essa norma e diz que a prefeitura na verdade deveria se preocupar com banhistas extremamente mal-educados. “A mentalidade do povo aqui é atrasada, em outros países se pode levar o cachorro na praia, como na Califórnia, nos EUA e vários outros lugares. Aqui proíbem um animalzinho de desfrutar esse espaço, mas não punem banhista que faz as necessidades no mar (incluindo a nº 2), a sujeira que deixam na praia, como fraldas sujas de crianças, bitucas de cigarro e todo tipo de lixo, mas quando veem um bichinho na praia tem gente que quer discriminar”, indigna-se Augusto.

O salva-vidas Rafael Sotelo trabalha há um ano no Posto 1. “Toda manhã corremos e nadamos e é automático, o Parafina vê a gente entrando em forma e já vem de imediato. Vai na frente, liderando e defendendo, se alguém se aproxima e tenta atrapalhar ele nos defende mesmo. Às vezes estou desmotivado por alguma razão e quando ele vem treinar me dá ânimo, melhora meu dia com toda a certeza. Ele nos dá muita alegria”, comenta.

“Tem gente que pula das pedras, o que é proibido e o Parafina sempre late pra nos avisar, ele entende que aquela atitude não é certa. É um auxílio muito bom pra gente, às vezes estamos com a atenção em outro lugar e quando ele late a gente consegue ver. Ele é muito companheiro”, afirma.

“Toda a noite ele janta e dorme no posto com a gente. É um cachorro super dócil. O Parafina é uma figura, quando ele voltou da gravação do comercial de TV apareceu com um cachecol e parecia até que estava metido, porque eu ia dar carinho nele e ele passava todo empinado”, diverte-se Sotelo.

“Falam mesmo que ele é a reencarnação de um bombeiro. Cada um acredita no que quer, mas se isso existe de verdade, então só pode ser. Nunca vi um cachorro tão dedicado a atividade física, carinhoso com todos, segue as instruções, ele é simplesmente fora do comum. Ele parece gente realmente, não tem como tratá-lo diferente. Ele é fiel a todos. Um dia estava procurando os pais de uma criança perdida e ele ficou do meu lado o tempo inteiro, como se estivesse trabalhando junto comigo mesmo.

 

E na real, ele trabalha junto com a gente, ele é tão importante quanto as pessoas daqui, como o Augusto mesmo, que é professor de Surf e às vezes vê uma situação de perigo e nos alerta. O Fina é nosso mascote e companheiro. Ele tem um apego muito grande com a gente, todo dia às 7h da manhã ele vai comigo colocar o cadeirão na areia e fica comigo até o Augusto chegar. Aí quando ele vê ele, esquece! Aí ele é só do Augusto”, risos. “Porque o que ele mais gosta de fazer mesmo é surfar, além de estar ao lado do Augusto, claro”, complementa.

“Uma vez estava tentando dar banho nele e ele fugia. Aí pedi pro Augusto pegar a prancha, não deu outra ele veio correndo, aí não conseguiu escapar (risos). Ele adora a água do mar, mas não pode ver a mangueira que sai correndo, ele é muito esperto!”, informa. Sotelo trabalhou em outros locais, onde conviveu com outros “mascotes”, mas, segundo ele, nenhum pode ser comparado ao Parafina.

 

“Essa dedicação, essa identificação com a gente... o Parafina é diferente, ele entende o que a gente fala, ele defende a camisa do bombeiro. Uma vez um bêbado quis nos provocar e o Fina foi pra cima dele. Se a gente está nadando ele está nadando junto, corre 10 km junto com a tropa, não cansa, vai sempre na frente. É impossível não reconhecer que ele é no mínimo, um cachorro muito especial”, opina.

 

“Ele tem admiração, uma verdadeira adoração pelo mar. Às vezes ele fica olhando fixo pro mar por muito tempo. Tem uma história engraçada, ele estava nas pedras tentando pegar uma tartaruga de qualquer jeito. Conseguiu colocar uma pata em cima dela, sentiu firmeza, aí foi colocar a outra pata, nisso a tartaruga mergulhou e ele foi com a cara na água. Acho que o maior sonho dele é surfar em cima de uma tartaruga. Foi muito engraçado o desespero dele pra conseguir nadar de ré pra voltar pras pedras. Ele ama tartaruga e pato (o biguá)”, confirma.

Concluindo, o Parafina é um cachorro atleta, amigo e pra lá de especial. É nosso privilégio poder vê-lo sempre surfando e nos encantando por aqui. A nossa missão é proteger todos os animais. Ame, cuide e proteja-os sempre. Valeu Parafina!
 

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