Na Rua da Amargura

setembro de 2015

por Evelyn Cheida

Ninguém almeja viver na rua. Quando uma pessoa não possui endereço perde tudo, principalmente sua dignidade. Mas como dizia Planet Hemp, cuidado com seu preconceito, pois ele pode estar apontado pra você. A Zerotreze foi ouvir histórias de quem vive nas ruas, à margem da sociedade, mas que antes já teve uma vida normal, como eu e você

Quem nunca reclamou da sujeira ou do mau cheiro de um mendigo? Aquela pessoa que não tem onde viver, que espalha colchão, papelão e o que mais encontrar para um mínimo de conforto ao dormir no relento da rua? Quem nunca negou uma esmola, uma atenção? Moradores de rua se tornam incômodos para a sociedade ou pior, se tornam invisíveis. A gente passa e não vê. Na real não queremos ver. É algo que nos toca lá no fundo, mesmo sem querer. É a perda da dignidade humana. Mas o que leva alguém a acabar nessa vida de total abandono de si próprio? Drogas, alcoolismo, morte dos pais, abandono da família, deficiências mentais, são vários os fatores desse triste jogo.

Alexandro Paranhos de Souza, 29 anos, natural de São Gonçalo (RJ), veio para Santos tentar melhorar de vida, com apenas 15 anos. Perdeu os pais quando era criança e tem poucas lembranças sobre eles. Desde que se mudou para cá vive nas ruas, trabalhando de lugar em lugar, fazendo bicos e o que pode para sobreviver. Há tempos que seu “lar” é em frente ao Shopping Miramar, no Gonzaga. Alexandro é bem conhecido e querido por lá. Afirma que nunca sofreu nenhum tipo de violência, nem tentativa de expulsão do local. As pessoas sempre o ajudam e elogiam sua educação. Mas o que mais admiram é a devoção por sua única companheira, a cadelinha Toti, encontrada ainda filhote por ele, em uma caixa em uma lata de lixo. Ela já tem cinco anos e é sua maior defensora. “Muitos doam ração e outras coisas para a Toti, sem nem ao menos eu pedir”, conta Alexandro.  

O dinheiro que ganha, mesmo em trabalhos paralelos ou doações, ele usa para se alimentar, comprar vestimentas e outros mantimentos. Quando chove ou faz muito frio, ele se hospeda em algum lugar que possa pagar, mas é sempre muito incerto. “Tenho que ficar em lugares que aceitam cachorro. Não abandono a Toti por nada”, afirma.

Apesar da vida difícil, Alexandro não perde a esperança de encontrar um emprego fixo e ainda conta com as promessas da prefeitura. “Me disseram que arrumariam minha certidão de nascimento pelo menos, mas até agora nada. Não consigo nada melhor por falta de documentos”, explica. Ele garante que nunca se envolveu com drogas e também não cometeu nenhum delito. “Porque eu vou estragar minha vida com isso? Ela já não é fácil e eu sei que esse tipo de coisa não vai fazer com que eu me sinta melhor. Graças a Deus desse mal eu não sofro. Sou limpo, corto meu cabelo sempre, procuro parecer uma pessoa decente. Drogas e bebida não vira”, desabafa.

“Muita gente me ajuda, param e me dão conselhos, mas emprego ninguém oferece. Nem todos que estão na rua são drogados ou ladrões. Infelizmente eu não tive sorte nessa vida, tive que largar os estudos cedo, mas isso não me torna uma pessoa ruim. Se alguém quiser me dar um emprego, estou à disposição”, garante.

Fábio Ferreira da Silva, 35 anos, natural de Santos, perdeu a mãe com 12 anos e foi morar com sua tia. Apesar dela sempre oferecer boa educação e carinho, havia muita humilhação por conta do ciúme de sua prima mais velha. Com 15 anos, começou a trabalhar em obras, porém o destino de seu pagamento não cabia a ele. Foi bastante explorado, e quando reagia era mandado para fora da casa de sua tia, que já havia alcançado certa idade e não tinha condições de intervir nos maus tratos causados por sua prima.

“Nessas idas e vindas de incertezas e muita tristeza, eu decidi viver por conta própria. Como dizia minha mãe, passado é passado, cabe a você fazer do seu futuro, um futuro melhor. Pode ser que eu não esteja na melhor, mas já vi muita gente pior. Graças a pouca educação que recebi, hoje em dia eu não tenho casa, mas vivo de forma digna”, conta Fábio.

Há quatro anos o local onde dorme e deixa seus pertences é o estacionamento do McDonald’s, em frente à Santa Casa de Santos. Fábio afirma não ter problemas, nem com os clientes ou funcionários do estabelecimento. “Sou muito educado e muitos me ajudam por saberem que sou assim. Infelizmente não são todos que tem o mesmo pensamento. Me encaram e acham que acabei de sair da cadeia, que sou viciado ou coisa do tipo. Mas o importante é que eu sei que sou uma pessoa boa e não faço coisas erradas”, diz.

Seu trabalho é cuidar de carros nas proximidades. “É um serviço honesto. Aceito o que o dono do veículo puder pagar e cumpro com o que combino. Mesmo não ganhando muito, é bem melhor do que ficar pedindo dinheiro em lugares públicos. A polícia às vezes não dá chance e maltrata a gente”, denuncia.

Fábio apresenta feições tristes, mas quando o assunto é solidariedade, sempre abre um grande sorriso. “Muitos me ajudam sem eu pedir. Acho que é aquela coisa de dar em troca. Eu sou educado e sou recompensado por isso. Eu escolhi viver assim e não me arrependo. Digo isso porque tenho meus irmãos, mas mesmo tendo o mesmo sangue, eles nunca apresentaram nenhum tipo de consideração ou sentimento por mim e eu sempre os tratei muito bem. Comigo é assim, acredito que é dando que se recebe”.

Geraldo Francisco, 64 anos, nascido em Recife (PE), perdeu sua mulher há muitos anos e foi morar com o filho Eliel Alexandre em Rio Claro (SP). Por conta de uma discussão por religião, Geraldo se sentiu humilhado e veio pra Santos tentar a vida sozinho. Ele afirma que foi um momento de desespero e que seu orgulho falou mais alto, mas que se pudesse voltaria atrás dessa decisão.

Logo que chegou à cidade, trabalhou como açougueiro no Mercado Municipal, porém nunca teve recursos suficientes para ter um lugar para morar. “Trabalhei como azulejista e jardineiro também, na verdade já fiz de tudo um pouco, mas nada que conseguisse pagar um aluguel”, relata.

Depois de oito anos vivendo nas ruas, ele foi encaminhado para um abrigo, inaugurado em maio de 2015, na Rua Manoel Tourinho, no Macuco. “Vivo por aqui, sou bem tratado, tenho café da manha, almoço e jantar. Posso tomar banho com o kit higiene que dão para mim e também durmo numa cama quente, é uma benção na minha vida”, afirma.

Geraldo tem mais duas filhas, mas, assim como seu filho, não sabem mais de sua existência. “Eles não têm ideia da onde estou. Se estou vivo ou morto. É muito triste isso, mas infelizmente não tenho recursos suficientes para procurar nenhum deles, nem mesmo minha filha Eliete, que mora perto daqui, em Itatiba (SP). Gostaria que alguém me ajudasse, seria eternamente grato”, declara.

Sem aposentadoria, o idoso desabafa. “Aqui tem muita pessoa decente, nos ajudam muito, mas as assistentes sociais, que possuem um “poder maior”, só vem aqui para tomar café, nem lembram que o ser humano existe. Eu poderia pedir para elas me ajudarem, mas já perdi minhas esperanças. Espero estar errado, muito errado. Gostaria de saber se tenho netos, acho que devo até ter bisnetos. Por enquanto só peço que Deus abençoe a todos eles”, finaliza.

Conversando com essas pessoas passamos a ter outra visão de vida. É fácil perceber que nenhum deles imaginou que teria esse fim. Portanto não julgue, e se puder, estenda a mão. Às vezes um pequeno gesto faz toda diferença para uma pessoa nessa situação tão vulnerável, expostas ao frio, à chuva, ao calor... à toda humilhação e desamparo. No site da prefeitura é possível encontrar trabalhos de assistência social, porém, procurada diversas vezes pela Revista Zerotreze, a Prefeitura de Santos não se manifestou. Esperamos que ninguém mais chegue a este abandono, pois como diz a voz popular, a rua é onde filho chora e mamãe não vê.

 

 

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