Motorzinho a todo vapor

março de 2016

por gerente

Superação em três rodas. Eliziário dos Santos, mais conhecido como Motorzinho, tem 54 anos e é um exemplo de que os sonhos, sempre, devem ser maiores que os tropeços da vida. Com mobilidade apenas nos membros superiores, ele pratica esporte há mais de 30 anos. Foi instigado pelos amigos, ainda bem jovem, a participar de coopers e trotes.

“Na minha primeira competição eu já logo disparei (risos)", lembra. As pessoas que assistiram ao desempenho dele o incentivaram a participar de outras provas, foi aí que tudo começou. Ele conta que, à época, não existia um campeonato santista oficial, o que havia eram corridas de bairro, disputas mais curtas. E foi assim que pegou gosto pela prática e, naturalmente, os desafios foram aumentando: das corridas de 10 km às grandes maratonas. Tornou-se, claro, o Motorzinho!

Completando 10 anos no pedestrianismo, em 1995, ele foi surpreendido por uma reviravolta. Trabalhava em uma pequena empresa, de material esportivo, que, na ocasião, sofreu uma tentativa de assalto. Eliziário acabou baleado, com cinco tiros, e um dos projéteis atingiu a quarta e a quinta vértebras dele. Por isso, ficou oito meses internado, entre a vida e a morte:

“um sofrimento terrível passar por todo aquele processo de recuperação”, recorda-se.

Segundo Motorzinho, ninguém disse que ele estava paraplégico, apenas que ele tinha perdido os movimentos, situação provisória, pois a fisioterapia e outros tratamentos o fariam voltar a andar. Ele suspeita que a equipe médica deve ter contado à sua família sobre a situação, mas, para ele, nada foi dito.

“O impacto foi tão violento, que tive de travar uma luta para sobreviver. Foi bastante doloroso, equipamentos em todo o corpo, medicações, exames...”

Ele voltou ao esporte dois anos depois, e com novos companheiros: a bicicleta, a cadeira de rodas e a cadeira de atletismo. Voltou disputando corridas de rua e campeonatos em toda a região. “Todos os lugares que me convidavam, eu ia participar... com a minha cadeira ou bicileta”, frisa. 

Apoio

Na época em que esteve internado, amigos e familiares se mobilizaram por meio de várias campanhas, para ajudá-lo nessa fase difícil, que, no primeiro momento, o ajudaram a mudar de um hospital público para um particular.

Durante o processo de recuperação, um grupo de pessoas – entre elas o empresário Geraldo Pierotti, que fazia parte da organização de uma prova, vendeu camisetas e reverteu o dinheiro arrecadado para ajudar Motorzinho. Dessa forma, assim que teve alta, foi convidado a participar da primeira corrida e caminhada com a cadeira, mas, infelizmente, não pôde naquela ocasião. Mas, no ano seguinte, estava lá, firme e forte.

Eliziário aprendeu aos poucos a andar de cadeira de rodas. No início era conduzido nas corridas. Depois, teve de praticar em uma cadeira esportiva para participar das próximas competições. “Nem sabia andar de cadeira e fui subir a Ilha Porchat, que nem era asfaltada na época.” Ele lembra da dificuldade: eram cinco horas que levava para subir e descer do local.

Foi assim, com todo o empenho e força de vontade, que participou de sua primeira prova, completada em 80 minutos. Já, a última, foi feita em 30 minutos!
 

Retomada

Após a primeira prova, ele começou a participar de várias outras corridas, treinou com especialistas, técnicos de atletismo e, ainda não satisfeito, aprendeu a nadar, fez hidroterapia, tudo para melhorar seu desenvolvimento e funções motoras. Acabou se empolgando e levou a natação, também, a sério. Ele brinca: “virei um biatleta”.

Durante muitos anos, fez biatlo e, depois, triatlo. De seus vários amigos, dois eram muito especiais: Pauê e Junior, atletas com deficiência reconhecidos no mundo do esporte. Unindo os três, surgiu, então, a ideia de fazer triatlo em conjunto. Junior nadava, Pauê pedalava e Motorzinho finalizava com a corrida. Terminaram em terceiro lugar, dentre todas as modalidades e categorias, isso lá em 2002.

Anos depois, participou de dez provas Ironman – uma das mais difíceis do mundo. Um exemplo de superação e de vida! Motorzinho é o pioneiro, no Brasil, em paraciclismo. As tantas conquistas ao longo dos anos lhe renderam mais de 200 troféus e medalhas.

 

Próximos desafios
 

Motorzinho ainda quer participar de uma outra grande prova, a Ironman no Havaí, que requer muito treinamento e apoio. Ele comenta que, às vezes, é necessário fazer empréstimo para participar de grandes competições como essa, pois a bolsa paga pelo governo custeia apenas a manutenção de seus equipamentos. Mesmo assim, ele não leva em conta as dificuldades, o foco está em mais essa prova internacional, para a qual já se prepara, pedalando 200 km e nadando outros 12 km!

 

“O meu lema é aproveitar cada momento da vida, ser feliz, sem pensar em coisas tristes. É preciso viver em festa e com Deus no coração".
 

 

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