GARAGE FUZZ

agosto de 2014

por gerente

Creditos: 
Fotógrafo: Tom Leal

Os santistas precursores do Hardcore no Brasil comemoram 20 anos do álbum que deu início a cena desse estilo no país

Comemorando 20 anos do lançamento do primeiro álbum, Relax in your Favorite Chair, Garage Fuzz é uma das bandas de Hardcore mais respeitadas do underground. Juntos desde 1991, estão fazendo shows comemorativos a este álbum. “Foi o começo de um estilo musical no Brasil, o Hardcore melódico. Ali começava toda uma cena no país, que influenciou até bandas que chegaram ao mainstream, como NX Zero e CPM 22. Fomos os precursores, esse foi o primeiro álbum do estilo no Brasil”, afirma o baixista Fabrício de Souza.

  “É importante comemorar também porque não tem muitas bandas dessa época que além da gente resistiram sem perder o estilo”, afirma o baterista Daniel Siqueira.

“Também tiveram outras que chegaram ao mainstream, mas pararam também”, conta o guitarrista Wagner Reis. Mas como se manter tanto tempo no underground? Eles contam que apesar do reconhecimento, até hoje não conseguem viver disso. Alexandre Sesper, vocal, é artista plástico, Fabrício trabalha com produção de shows, Nando Bassetto, guitarrista, tem um estúdio e toca na noite santista, Wagner é corretor de café e Daniel é funcionário público. “Um complementa o outro, a renda dos shows também é importante. Ficar sem tocar para nós é inviável, tanto financeiramente, como pro nosso bem estar, não conseguimos viver sem isso”, diz Daniel. “É mais tempo tocando do que não tocando nas nossas vidas. Realmente impossível viver sem”, completa Wagner.

Segundo eles, a cena Hardcore no Brasil melhorou mesmo de uns sete anos pra cá. “Aquela história de que uma andorinha não faz verão é verdade. Você tem que ter um circuito, que seja alimentado por diversas bandas. Hoje existem outras bandas que também tem um público fiel. Posso afirmar que hoje em dia ganhamos bem mais do que há 10 ou 20 anos atrás”, revela Fabrício. Mas eles acreditam que falta renovação na cena. “Tem pouca gente nova produzindo coisa boa e uma renovação é preciso para manter o Hardcore brasileiro vivo”, afirma Daniel.

Eles se conhecem desde garotos e tiveram outras bandas. Montaram uma sala de ensaio dividida por tapumes para que duas bandas pudessem ensaiar ao mesmo tempo. Vindos do estilo Punk de protesto, queriam fazer algo diferente. “Na verdade acho que sonhávamos com uma Guitar Band”, revela Wagner.  As maiores influências musicais do Garage vão de Heavy Metal, Punk, Hardcore até o Grunge. “Ouvimos muitos estilos musicais diferentes e isso ajuda uma banda a não cair na mesmice e a poder variar mesmo conseguindo construir uma identidade, como nós conseguimos fazer”, afirmam Wagner e Daniel.

Em 23 anos de carreira foram oito lançamentos, entre EP, disco cheio, disco ao vivo e DVDs. O último CD foi lançado pela revista 100% Skate, com 10 mil cópias distribuídas. Até hoje eles só cantam em inglês. “Todas as nossas influências pro som do Garage foram de bandas gringas, não teve como fugir disso”, avalia Fabrício. “E também pra gente a sonoridade em inglês fica melhor”, completa. As letras são compostas pelo vocalista Alexandre Sesper, o Farofa.

Pra se manter fiel ao próprio estilo pagaram o preço. O primeiro álbum foi lançado em 15 países pela Road Runner, grande gravadora americana que tinha filial no Brasil e lançou nomes como Sepultura. Mas quando estavam gravando o segundo álbum, as divergências com a gravadora começaram. Eles queriam que o Garage seguisse o estilo dos Raimundos, banda que estava no auge misturando Rock com elementos tradicionais nordestinos. Mostraram as quatro músicas que já tinham feito e avisaram, se quer, vamos gravar, senão recindimos o contrato. “Eles ficaram de queixo caído, não esperavam essa reação. Começamos a ser procurados por gravadoras independentes, porque se pra eles a nossa vendagem não era o suficiente, para uma gravadora independente nós éramos o carro chefe”, conta Fabrício.

Foi quando o Rafael Crespo, então guitarrista do Planet Hemp, dono da gravadora Spicy Records os convidou e lançou um CD do Garage com as quatro músicas. “Ele deu sorte pra gente, foi mixar um CD do Planet nos EUA e distribuiu um monte de fitas nossas em gravadoras da Califórnia”, recorda Fabrício. Lançaram o terceiro CD pela californiana One Foot Records, que também distribuiu o trabalho deles em vários países.

Críticos dos jornais O Estado de S. Paulo e Folha falavam muito do Garage Fuzz. Promoviam eventos e os chamavam pra cantar. Em uma ocasião, o Jello Biafra da banda punk Dead Kennedys estava presente e adorou o som do Garage, declarou a imprensa que foi a melhor banda que ele ouviu no Brasil.

O fato de eles não terem se vendido para alcançar o sucesso mainstream é o que garante o respeito que o público tem pelo Garage Fuzz. Seus fãs nunca foram “ofendidos” pelo fato de terem mudado de som ou de postura. O Garage é o que é e isso que os torna diferentes e super respeitados por quem ouve Hardcore. “O respeito é realmente o mais importante pra gente, é a maior conquista da banda”, declara Daniel. “A gente coloca a música em primeiro lugar, tudo que a gente quer na vida é tocar”, confirma Wagner. “Nós nem queríamos ser músicos, nós éramos acima de tudo, fãs de Rock. Esse amor que nos levou a querer tocar e escrever nossa história”, revela Fabrício. Quando perguntei se eles nunca sonharam com a fama, foram categóricos. “Claro que sim, queremos ser famosos e ricos como todo mundo, mas só se for tocando o nosso som. Mudar nossa proposta e nosso estilo musical pra atingir o sucesso, é isso que não aceitamos”, concluem. O CD novo está praticamente pronto, em fase de pré-produção. “Pretendemos gravá-lo no segundo semestre para lançamento no final do ano”, informa Daniel. O próximo show será na Tribal no dia 4 de julho. Imperdível.

 

 

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