Cisco Aranha

janeiro de 2019

por Lethicia Gabriela

Creditos: 
Fotógrafo: Tom Leal

Uma Lenda Viva do Surf Santista

Francisco Alfredo Alegre Araña, todo santista já ouviu esse nome em algum lugar, ou pelo menos sabe quem é Cisco. Aos 61 anos, um dos pioneiros no surf vive sua glória e se sente nas nuvens, totalmente realizado. Ao olhar em seus olhos é possível ver o brilho de quem faz o que ama. Com um grande coração, é conhecido não só pelo esporte, mas também pela amizade e ajuda que oferece para quem está por perto.

Já foi homenageado no filme “Cisco Araña Longboard Bossa Nova”, é fundador da primeira escola de surf pública do mundo e elaborou a primeira prancha adaptada para deficientes visuais. Além dos vários títulos que acumulou em cinco décadas de esporte, Cisco sempre se doou para o próximo.
Com a vida de frente para o mar e dentro dele, o pequeno Cisco cresceu.  

    Eu sempre morei no bairro da Pompéia, a uma quadra da praia. Pescava por aqui, brincava no mar. Meu primo é de uma geração bem antiga de surfistas, já morou nos EUA, fazia pranchas. Eu assisti tudo isso aos seis anos. Aos nove comecei a surfar,    lembra o surfista.

    Nessa época, ele tinha uma prancha francesa de três metros, precisava de seis pessoas para carregar.  
    Aos poucos, o esporte tomou conta de toda família de Cisco. O irmão mora em São Paulo e tem quatro filhos que pegam onda. A esposa Paula e a filha Nicole, de 12 anos, também não ficam de fora. A Zerotreze teve o prazer de entrevistar o surfista e conhecer um pouco mais de sua vida.
    Após tantas matérias regionais e até nacionais, nossa equipe foi atrás da ótica de Cisco. Como ele se sente ao ver muitos de seus sonhos realizados.

ZT O que o mar trouxe pra você?

Moro perto do mar e minha vida é o mar. O que eu mais amo virou minha profissão. O estudo foi um fator importante. Não entrar nas drogas foi essencial. Ter uma boa conduta, ter meus pais como referência. Meu pai é das Ilhas Canárias, o Hawai da Europa, um lugar maravilhoso que fiquei muito feliz de visitar.
Tive algumas dificuldades na minha vida, mas todas foram superadas principalmente pelo Oceano. Por essa coisa que a gente fala “a cura do oceano”. Estar bem com a vida, relaxado, com amigos e tentando fazer o bem para as pessoas. Sempre motivá-los para que sintam o que a gente sente. Isso é a minha vida.

 

ZT Como é olhar para trás e ver a história que você construiu até aqui?

-Vejo toda dificuldade que minha geração teve, aqui em Santos nossas pranchas eram apreendidas e quebradas na nossa frente na década de 70.
E hoje a escolinha é referência para o mundo, com atividades de inclusão, acessibilidade, trabalha com crianças e adultos especiais. Poder participar e observar isso é um sonho, é um delírio. Me sinto em uma nuvem, sentadinho, olhando lá de cima tudo o que me aconteceu com muita alegria.

 

ZT Você aprender a surfar nos anos 70, como aconteceu?

-Naquela época era muito difícil, não tinha cordinha, então as pranchas rolavam até a praia. Não existia metodologia, técnica ou escola. A gente aprendia observando e nessa geração antiga eram todos exímios nadadores. Era natural ir atrás da prancha. A primeira metodologia de surf no Brasil foi criada por mim, algumas coisas que fizeram muita diferença no ensino. Uma das coisas que me ajudou muito, inclusive a elevar o nível e minha longevidade física, foi a minha presença na educação física. O conhecimento do meu corpo para ir mais além.

 

ZT Dia 23 de junho a escolinha de surf completa 27 anos. Como esse projeto nasceu?

-Em 1991 entrei na Prefeitura e fiz um evento muito grande onde hoje é o Emissário Submarino. Antigamente toda a areia que era retirada dos canais ia parar ali. Vi toda aquela área ociosa e pensei em uma cidade radical. Um mês inteiro com atividades que eram consideradas como marginais: skate, mountain bike, surf, bodyboard, longboard, patins inline e etc..
    Pedi para a prefeitura uma retroescavadeira e caminhões de terra. Eu e mais dois amigos fizemos uma pista de bicicross na mão, pouca gente sabe disso. Fizemos tudo sem dinheiro nenhum, só com o apoio da secretaria de esportes. Passaram mais de 2 mil pessoas por lá, foi um sucesso. O resultado foi uma matéria enorme na Folha de S. Paulo dizendo que era uma área impressionante de prática de esportes, sem drogas. O secretario de esportes de Santos viu meu potencial e deu a oportunidade de fundar uma escola pública de surf.

ZT Nos primeiros anos da escolinha você teve um grande desafio; um aluno com deficiência visual. Como foi ensiná-lo?

-O Valdemir Corrêa me ensinou muito, comecei a por vendas e tentar sentir o que ele sentia. Dessa forma, eu poderia criar um método para ajudar. Sol, temperatura, barulho das ondas e tudo que era possível “sentir” sem precisar usar a visão. Então, fiz o desenho de uma prancha adaptada com um tapete tátil, foi a primeira prancha adaptada do mundo. Ela têm 10 fatores diferenciados que “falam” por si.
    A oportunidade de trabalhar com ele me fez enxergar a cidadania e a questão da escola dar chance para as pessoas. Fazer o bem é um sonho para mim, foi assim que nasceu o “Sonhando Sobre as Ondas”. Tudo que eu tenho mesmo, meu trabalho, meu alimento, o que pagas minhas contas, vem do que eu mais amo que é o oceano e o surf.

 

ZT Quais são seus planos para o futuro?

-Quero abrir uma nova escola para crianças especiais para poder ampliar todo esse trabalho que a gente vem fazendo nos últimos anos. Vou continuar surfando e curtir mais a vida com a minha família. Me aposentar, tirar o pé do acelerador e aproveitar os anos que tenho pela frente. Aloha! ZT

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