Capoeira nas Escolas

janeiro de 2019

por Carol Bertholini

Imagine o seguinte cenário: um círculo formado por pessoas sentadas no chão, batendo palmas no ritmo do atabaque, do pandeiro e do berimbau. Elas cantam enquanto, dentro desta roda, duas pessoas realizam movimentos e acrobacias com tamanha perfeição que parecem estar sincronizadas. Pela descrição não é difícil imaginar uma roda de capoeira.

    Mas, e se acrescentarmos alguns detalhes a este cenário?! Detalhes que te façam perceber que a capoeira pode ser, e é, muito mais do que os olhos vêem, literalmente.
    Imagine, então, sentados neste círculo, batendo palmas e cantando, portadores de necessidades especiais. Dentro daquela roda, jogando a capoeira, um cadeirante ou uma pessoa cega. Talvez você não consiga visualizar essa roda de capoeira funcionando, não é mesmo? Mas existe aquele ditado que diz que era impossível, até que alguém foi lá e fez. Pois é. Esse alguém tem nome e sobrenome. Mais precisamente Márcio Rodrigues dos Santos. "Um visionário", dirão alguns. "Um transformador social", outros apostarão. E a verdade é que a ele cabem diversos atributos.

Em 1995, com o objetivo de melhorar a coordenação motora e diminuir a obesidade infantil das crianças, Márcio criou o projeto Capoeira Escola.

Na época, o projeto era executado em escolas particulares de Santos. Em paralelo, alguns anos depois, fui estagiário de Educação Física na ONG Grupo Amigo do Lar Pobre (GALP). O local acolhia crianças e adolescentes carentes. Quando os atendidos descobriram que o estagiário era também capoeirista ficou difícil não transmitir este conhecimento para eles, relembra.

Mas a ONG entendia que a capoeira poderia despertar agressividade. Às escondidas, o então estagiário passou a ensinar a capoeira e realizou uma apresentação surpresa de final de ano.

Foi o suficiente para que, à partir de então, as aulas de capoeira se tornassem uma realidade no GALP, onde eu atuo até hoje.

    A experiência de Márcio uniu-se à expertise de um professor da faculdade e o entendimento de que a capoeira podia ser uma ferramenta de cidadania iluminou o caminho que estava apenas começando.

    Nós criamos um método específico, que une todas as culturas da capoeira com o saber acadêmico. O diferencial é que todos podem participar. Independente das condições e limitações.

A proposta foi levada para locais como o Lar das Moças Cegas, que atende pessoas com necessidades visuais especiais. E foi assim que nasceu o Capoeira para Todos.
    Mas uma questão ainda incomodava.

Em determinados locais havia apenas pessoas com necessidades especiais.
E o que nós queríamos era que todos, portadores ou não de necessidades especiais, participassem da mesma roda, da mesma aula.

 

Hoje pessoas portadoras de autismo, dificuldades motoras, intelectuais, físicas, jogam juntas!

Uma delas é o Claudio Valerio Ferreira Junior, de 33 anos, e que por conta de uma paralisia cerebral bastante severa apresenta um quadro de triplegia onde as duas pernas e um dos braços não respondem ao estímulos cerebrais. Segundo a dona Mildes Azevedo Ferreira, mãe do Claudio, muitos anos atrás, ainda adolescente, ele conheceu a capoeira em uma das instituições por onde passou. Mas não foi possível participar das aulas devido a distancia.

    Mas quatorze anos atrás, já em outra escola, nós conhecemos o Márcio, e o Claudinho passou a participar das aulas de capoeira. A primeira vez que eu vi ele participando de uma roda foi na festa da escola. Foi muito emocionante saber que ele fazia parte de alguma coisa, que alguém tinha se interessado em dar esse prazer para ele,
conta dona Mildes.

     Quem tem a oportunidade de ver "Claudinho" na roda não deixa de perceber o envolvimento e a felicidade por se sentir pertencente, incluído.

    O que mais me mostra o quanto a capoeira faz bem para o meu filho é perceber que ele não se acha diferente dos outros. Isso é maravilhoso porque ele joga com qualquer um. Ele desce da cadeira e se vem alguém de fora, ele sempre está disposto. Do jeito dele, claro. Mas é lindo de ver!

E a inclusão também afetou a vida daquele que Márcio gosta de chamar de "braço direito". Allan Maciel tem 32 anos. Mas conheceu o professor Márcio quando tinha apenas dez. Ele era um dos atendidos pelo GALP e lembra com clareza quando a capoeira passou a fazer da sua vida.

    O Márcio estava substituindo um professor que havia faltado. Era aula de educação física e estávamos jogando futebol. Foi quando ele fez um gol e comemorou executando uma acrobacia. A gente ficou encantado! Foi quando descobrimos que ele era capoeirista e insistimos muito para que ele nos ensinasse.

  Quando a aula foi aceita no espaço, Márcio as desenvolveu com embasamento.

Ele sempre falava sobre disciplina, respeito, ensinava valores. A gente começou a praticar e ele nos levava para todas as apresentações, o que acabou nos motivando. Além disso, o tempo ocioso que tínhamos era ocupado com esporte e cidadania.

Para Allan, o exemplo de Márcio foi inspirador.

Talvez pela idade que é meio próxima, a vontade de ser como ele foi despertada em mim. Eu quis ser professor. Aí eu estudei educação física e como já conheciamos o ambiente das universidade e escolas por conta da participação nas apresentações, o caminho se abriu com mais facilidade. É um divisor de águas. Até então eu não conhecia ninguém na ONG que tivesse feito faculdade.

As aulas acontecem em diversas escolas e universidades, e atendem mais de 1500 alunos. O projeto não conta com apoio do poder público, mas tem esperança de conquistar uma sede para ampliar as atividades e o número de atendidos. Se depender da garra, determinação e merecimento deste mestre da capoeira de inclusão, é questão de tempo! ZT

Versão Impressa

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo