Delray Beach, Flórida

dezembro de 2017

por gerente

Por Bruna Pavanato Fotos: Arquivo Pessoal

ZT Pelo Mundo

Matéria referente a Setembro - Outubro - Novembro - 2017

A Flórida continua sendo um dos destinos favoritos entre brasileiros. Em 2013 foram mais de 1.2 milhões de brazucas que invadiram as praias, shoppings e parques dessa península americana. Na verdade, em número de visitantes, nós perdemos apenas para os canadenses, que mandam mais de 3 milhões de turistas todos os anos! Mas não se engane achando que Miami é sempre o ponto final de quem quer morar no estado americano. Pequenas cidades ao sul abrigam uma grande comunidade verde e amarela. Um delas é Delray Beach, onde mora a santista Janaina Dib Pina de 41 anos, que compartilhou com a gente um pouco de sua história nesse local que aparenta ser um pequeno pedaço do paraíso. "Após quase 20 anos fora do Brasil até hoje tento descobrir as razões de ter saído daí. Abandonei a família, os amigos, as praias, os chopes nos bares e os churrascos. Os abraço apertados, minhas músicas favoritas tocando no rádio, até amores deixei pra trás. Mas acredito muito em destino e o meu me trouxe pra cá", conta. Janaina cresceu entre duas cidades da Baixada Santista, Cubatão, onde sua família materna sempre viveu e Santos, onde seu pai sempre morou e onde ela nasceu. "Eu aprendi desde pequena a lidar com mudanças. De casas, de escolas, e de uma cidade pra outra, talvez por isso nunca tive medo disso. O desconhecido sempre me fascinou. Cresci em vários bairros humildes e de família simples, mas de grande coração e uma integridade ímpar. Sempre me considerava a pobre rica, pois nunca me faltou nada. Eu, por sinal, era uma das poucas da minha rua que tinha ceia de natal e presentes do papai noel. Ver tantas pessoas passando necessidade ao meu redor me deu muita força. Eu sabia que iria sair daquele lugar e que isso só dependia de mim. Desde pequena minha mãe me ensinou que com o suor próprio conquista-se o inatingível. Ela me ensinou direitinho. Eu cresci muito forte, lutando pelo que queria. Mas quando cheguei na faculdade fiquei um pouco perdida. Eu trabalhava demais e já havia mudado para Santos. Mas sempre me senti um peixe fora d’agua. Faltava algo e eu não sabia o que. Só sabia que tinha mais no mundo do que o que eu vivia, e se outros podiam provar o mundo, porque não eu?" completa. No começo, todos da família foram contra sua mudança para a Flórida, mas seu desejo de ir era imensurável. "Vendi meu Fiat Uno que comprei após anos de trabalho e comecei minha jornada. Inicialmente vim para estudar ingles após me formar no curso de Publicidade e Propaganda em Santos. A intenção era estudar por 10 meses e voltar, pois o dinheiro que eu tinha, havia sido calculado para esse período, e é claro que acabou bem antes. Fui direto para uma cidade pequenininha chamada Arcata, no norte da Califórnia. Já sai do Brasil matriculada na Humboldt State University. Eu não falava nada de inglês, por sinal foi a única classe que tive que repetir na faculdade, não entrava na cabeça", relembra. Sua adaptação não foi nada fácil, mas em nenhum momento Jana pensou em desistir. "Eu não conhecia ninguém. Combinei de ficar em uma casa de família nos primeiros 2 meses e depois ia ver o que fazer. Fui com 2 malas de mão, aquele tempo não existia as rodinhas, 1 casaco, sem saber que lá fazia frio 10 meses do ano, e muita curiosidade, nunca medo. A princípio foi muito difícil, muitas saudades, pouco dinheiro, sem emprego, eu chorei muito", desabafa. A santista chegou nos Estados Unidos na época que não existia smartphone, FaceTime, WhatsApp, Facebook, Skype, nem mesmo as mais antigas redes sociais, o Orkut e ICQ. Falar com a família era um luxo que custava U$20 para fazer duas ligações rápidas por mês, alto demais para ela na época. "Meu primeiro emprego foi implorado. Por conta das minhas limitações no inglês, acabei limpando os banheiros da biblioteca da universidade onde eu estudava. Mas logo fiz muitos amigos e meu destino começou a mudar. Aprendi o inglês para enrolar, e em um ano fui convidada pela mãe de uma amiga para trabalhar vendendo carros. De aí meus sonhos ficaram grandes e cada oportunidade de emprego me levou para um lado diferente. Eu ia onde tinha trabalho, onde me davam uma oportunidade melhor. Quando não temos família próxima, nós perdemos as raízes e o mundo fica pequeno", comenta. Janaina ficou nessa região três anos até se mudar para San Francisco para vender software para concessionárias de carro, o que também durou três anos. "Depois fui para Porto Rico no Caribe, como consultora no ramo de carros, pois eles precisavam do conhecimento dos negócios nos Estados Unidos, logo virei gerente e foram mais três anos aí. Lá, eu fiz minha pós-graduação em Business e Marketing em uma Universidade Americana. Após um coração partido por um noivado que não deu certo, consegui uma entrevista, através de uma ex-chefe, com a Marinemax, a maior revendedora de barcos do mundo, atual empresa que trabalho. Primeiro fui para gerenciar a loja deles em San Diego, onde finalmente comecei a me relacionar com brasileiros de novo e conheci meu marido. Ele me trouxe de volta para minha cultura, voltei a falar português correto e até mesmo a voltar a ir em busca de comidas brasileiras. Adivinha quanto tempo fiquei lá? Sim, três anos. Parecia que a minha data de validade nos lugares eram 3 anos", brinca. De lá, ela foi transferida para Delray Beach, nosso destino da ZT pelo mundo, onde mora a sete anos. "Aqui eu decidi ser mãe e, para ter mais tempo livre, o que não aconteceu, voltei para as vendas e me tornei uma vendedora de Yachts para a mesma empresa. Apesar de trabalhar muito, eu amo o que faço e me destaco nisso. Sou uma das poucas mulheres no ramo e sinto orgulho disso", afirma. Localizada entre Boca Raton e Boynton Beach, e apenas a uma hora de carro de Miami, Delray Beach é uma cidade turística sofisticada. Cheia de galerias, lojas, boutiques, restaurantes e entretenimento noturno. Tem mais de 60 mil habitantes e é uma cidade que já conquistou muitos prêmios. Entre eles, o de cidade pequena mais animada da América, através do concurso anual “Best of the Road”, organizado pela empresa americana Rand McNally (especializada em Atlas e Turismo) e o USA Today. E a avenida principal da cidade - Atlantic Avenue, que tem uma paisagem urbana encantadora, já foi premiada como a mais bela “main street” da Flórida, pela Florida Monthly Magazine. Os dois quilômetros de praias públicas com águas cristalinas atraem cerca de um milhão de visitantes por ano. A prática de esportes é uma atração para residentes e turistas. Há atividades como vôlei, jet-ski e churrascos no fim de semana - quando se pode apreciar a beleza da natureza em uma das cabanas disponíveis para aluguel. A cidade mantém cinco campos de atletismo, cinco parques à beira-mar, oito parques comunitários e uma grande variedade de atividades culturais que também são convidativas. Para quem curte um bom teatro depois da praia, o teatro Crest exibe atualmente uma exposição sobre a vida de Elvis Presley. Você pode solicitar o transporte, que é gratuito, e pagar apenas as gorjetas. E um dos principais destinos turísticos da cidade é o Morikami Museum and Japanese Gardens, que recebe visitantes de todos os Estados Unidos e do exterior. Possui biblioteca, salas de aula, um auditório de 230 lugares e computadores que permitem aos visitantes interagir com os expositores. O museu está rodeado por jardins, cachoeiras e florestas de pinheiros que fazem do Morikami uma atração singular. Para quem é ligado em arte, Delray também é uma excelente pedida. Mais de vinte galerias e peças de arte pública estão expostas no centro e no Pineapple Grove Arts District. O lugar atrai visitantes nas noites da primeira sexta-feira do mês, entre os meses de outubro a abril, quando artistas trabalham em seus estúdios e realizam eventos culturais. Além das galerias e exposições, há também barraquinha de comidas, muita música e ateliês expostos ao ar livre. "A vida aqui é diferente, mas o lifestyle depende de onde você mora. Sim, tudo é mais caro, mais ganhamos mais. Pessoas formadas em uma Universidade não precisam trabalhar no ramo delas para terem respeito, oportunidades aparecem para trabalhadores em geral, porque eles dão valor aos que se dedicaram aos estudos. Americano não é nada como os jornais e filmes transmitem. A maioria das pessoas são boas, caridosas e muito engraçadas. Tudo bem, vale ressaltar que dançam um pouco mal e que não são muito chegadas em beijos e abraços, mas são meros detalhes. A verdade é que quando gostam de você, gostam de verdade, sem falsidade. Quem chega aqui tem que deixar o orgulho de lado, porque no começo vai ter que recomeçar e fazer coisas que não faria no seu país de nascença. Para mudar pra cá a pessoa tem que abrir mão de muitas coisas para adquirir várias outras. E vai de cada um se vale ou não a pena. Para mim valeu mais pelo fato de que o Brasil infelizmente piorou muito, hoje em dia me sinto abençoada de ter ido embora. Na minha época  eu ficava até 4:00am na praia do CPE com os amigos, namorava no banco da praia, dirigia sem medos. E por isso não volto mais. A burocracia excessiva e a nossa corrupta cultura também já não me agradam mais. Aprendi a ser diferente aqui e a viver diferente também. Após essa jornada profissional meu plano é me aposentar na Califórnia, amo muito várias cidades lá e adora a cultura das pessoas lá que são mais mentes abertas que em qualquer lugar que já passei. Eu vivi o verdadeiro “California Dream”. Lá foi onde comecei e foi lá que conheci pessoas maravilhosas que me deram oportunidades para crescer aqui dentro. Não me sinto mais um peixe fora d’agua, sinto que estou onde deveria estar. Nenhum lugar no mundo é perfeito, mas acredito que cada um tem um perfeito lugar no mundo", declara. E aí, ficou com vontade de conhecer Delray Beach ou até se mudar para lá? Então a Janaina tem um recado para você: "Eu sempre digo que morar fora não é para qualquer um. As dificuldades são muitas pois normalmente estamos sozinhos, e tudo que passamos é sem o abraço da mãe ou ajuda da família. Não temos o suficiente para pagar as contas, lavar as roupas, ou fazer nossa comida favorita nos fins de semana. Criamos filhos sozinhos, sem babá ou empregadas domesticas, aqui isso é luxo demais. A saudade é maior ainda, pensei em voltar várias vezes no começo, mas meu destino sempre me ancorava aqui. O bom de morar fora é que abrimos muito a mente. Vemos o mundo por olhos diferentes. Quando eu morava no Brasil eu via o mundo de uma certa maneira que vai de acordo com aquela cultura, religião, grupo de amizades que freqüentavas. Aqui não é assim, é uma mistura grande de culturas e ideias, e fora os radicais, a maioria das pessoas respeitam essas diferenças. Tipo assim, “está feliz? Bom pra você, não vou me meter”. Isso é o que mais amo aqui, é tão multicultural que você aprende a ver o mundo com outros olhos. A ver que existem várias maneiras de viver, e não só a sua é a certa. Esse sem dúvida foi meu maior tesouro adquirido," finaliza.  

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