Responsabilidade Social

dezembro de 2017

por gerente

Por Carol Bertholini Fotos: Danilo Tavares
Matéria referente a Setembro - Outubro - Novembro - 2017

MÚSICA E CIDADANIA são ferramentas de inclusão social no Centro de Santos Escola de Choro e Cidadania Luizinho 7 Cordas completa seis anos transformando a vida de crianças e adolescentes

"De frente pro mar... mas de costas pra favela". Composta nos anos 90, a música da banda Planet Hemp se refere a cidade do Rio de Janeiro. Mas a frase cabe perfeitamente para figurar a realidade que Santos também vive. Quanto mais afastados da praia mais os bairros que compõem a cidade do futebol arte sofrem com a desigualdade social e com o descaso do poder público. Especialmente os bairros da Vila Nova, Paquetá, Centro, e também os morros, sofrem com o desequilíbrio social. Na cidade do maior jardim a céu aberto do mundo, para as famílias que moram nestas regiões, nem tudo são flores. Buscando amenizar este cenário, o Clube do Choro de Santos, que é formado por amantes do estilo musical, resolveu unir forças e criar uma alternativa para crianças e adolescente que vivem nestas áreas mais vulneráveis. A ideia ganhou corpo em 2011, quando foi criada a Escola de Choro e Cidadania Luizinho 7 Cordas. O objetivo era simples: ensinar os alunos a tocar instrumentos musicais relacionados ao choro, acrescentando conceitos de cidadania em meio aos encontros. O nome é uma homenagem a um dos maiores violonistas do Brasil. Como em todo início, as dificuldades foram muitas. Não havia estrutura física ou instrumentos para poder ensinar. Mas o ideal se fez combustível para a caminhada que, neste mês de abril, completa seis anos de atuação. Até o momento, mais de cem crianças já passaram pelas cadeiras da Escola que desenvolve ainda, por meio do patrocínio concedido pelo Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), o projeto "Música e Cidadania" em parceria com associações e escolas públicas da cidade. Atualmente, cerca de 110 crianças têm acesso a cultura que engloba a história e a importância do choro e, consequentemente da música em si. Os alunos aprendem a tocar violão (6 e 7 cordas), bandolim, piano, cavaquinho, flauta transversal ou percussão. A proposta tem levado novos horizontes e, principalmente, mudança para a vida dos jovens aprendizes. A maioria deles nunca tinha ouvido falar do choro, que é um estilo musical genuinamente brasileiro, ou até mesmo visto um bandolim. Conseguir manusear um instrumento e tocá-lo então, talvez nem em sonhos. De aprendiz a professor Entretanto, aqueles que passam pelas cadeiras da Escola já podem não apenas sonhar como também realizar o desejo de se tornar músico. Este foi o caso de Lucas Paini, que teve o primeiro contato com o violão aos treze anos. A relação transformou perspectivas. Hoje, aos dezoito, ele faz parte do quadro docente da Escola. “Foi difícil no começo. Acredito que todos os passos mais importantes da vida são assim. A música hoje completa a minha alma. É dela que eu pretendo viver”, afirma o jovem professor. Lucas acompanha as aulas do Maestro William Dias, dando assistência aos alunos. "Apesar de desejar, não imaginava que um dia estaria trabalhando ao lado daquele que me ensinou. É um prazer e uma grande honra". A timidez de Lucas tenta, mas não esconde o orgulho de poder ajudar outros alunos. "Ver que os alunos poderão sentir a mesma satisfação que eu sinto em ter contato constante com a música é como renovar as esperanças em um futuro melhor, com pessoas mais felizes, completas, com respeito e dignidade". Pequeno Notável Com apenas 8 anos, o pequeno Davi César já chama a atenção dos colegas e dos professores. A habilidade e envolvimento do garoto com os instrumentos que já teve contato demonstram que o futuro pode aguardar bons ventos musicais. A mãe do aluno, Alessandra Brito Xavier, conta que, desde muito pequeno, o filho apresentava uma forte ligação com a música. "Desde muito novo, tipo uns quatro anos, ele sempre pedia instrumentos para brincar. Tudo começou com uma bateria!". Moradores do Morro do São Bento, a dupla enfrenta um dia a dia corrido. Mas a mãe percebe a alegria do filho sempre que participa das aulas e esta nova realidade incentiva Alessandra, que é mãe solteira e cria o filho sozinha, a manter a rotina mesmo em meio às dificuldades. Davi iniciou os aprendizados por meio do cavaco, e logo a flauta doce chamou sua atenção. Hoje, ele desenvolve os conhecimentos na flauta transversal. E quem o acompanha nas redes sociais tem sempre o prazer de conhecer suas composições, costumeiramente compartilhadas pelo garoto. Mesmo sendo apenas um menino, Davi parece compreender muito bem o valor do que aprende nas dependências da Escola de Choro e Cidadania Luizinho 7 Cordas. "A música é a minha vida. É o meu amor. Para mim, a música é tudo!", afirma com brilho no olhar. Regendo solidariedade Mas em meio aos jovens aprendizes, uma figura imprescindível: o professor. Responsável pelo método aplicado, Maestro William Dias tem uma trajetória de vida completamente relacionada aos projetos sociais que têm a música como ferramenta de trabalho. A experiência o torna não apenas um profissional competente, mas acima de tudo, alguém que conquistou a admiração dos alunos. "Na vida qualquer conhecimento que não seja compartilhado, morre um pouco. Tem coisa melhor do que perceber a evolução nessas crianças que, quando chegaram aqui, não conheciam nenhum instrumento que não aparecesse na televisão, nas bandas convencionais?! Nós aqui buscamos ampliar este universo que é tão vasto e ao mesmo tempo, para eles, tão desconhecido e distante". Para o Maestro, a realidade em que estas crianças estão inseridas muitas vezes pede uma atenção e sensibilidade maior da Escola. "A gente entende que uma criança repete aquilo que aprende. E buscamos ensinar música, mas também observando a forma como o aluno se expressa. Trabalhar conceitos de respeito, perdão, amor, solidariedade, companheirismo. Tudo isso faz parte das aulas. E claro que percebemos a mudança no comportamento de cada um deles". O maquinista Mas para que toda essa engrenagem funcione é necessário um maquinista. Mais conhecido entre os alunos como "tio Luiz", também responde por Luiz Fernando Ortiz, o diretor da Escola. De personalidade forte e grande determinação, Luiz nem sempre é só sorrisos. Na hora de dar bronca, cobrar concentração e repreender pelo uso desatento dos instrumentos não tem firula. A voz entonada é ouvida por todos. E respeitada! Mas, as orientações aparentam ter um peso bastante positivo ao ver dos alunos. No final de cada aula, os abraços fortes vêm acompanhados de beijos e "até logo, tio Luiz". Esta cena também parece fazer parte do ritual do cotidiano. É como se todos ali reconhecessem o trabalho desenvolvido com muito esforço e dedicação pelo advogado que constrói aos poucos, e em paralelo a advocacia, as chances de transformação na vida de cada uma das crianças e adolescentes atendidos. Para o diretor, "a caminhada não é nada fácil. Mas a gente, vira e mexe, se depara com o surpreendente. Sempre aparece alguma mão estendida que, no final, se entrelaça. E a gente vai assim, sempre aumentando este cordão". De Portas Abertas Localizada em uma sala nas dependências do tradicional Mercado Municipal de Santos, a Escola de Choro e Cidadania Luizinho 7 Cordas tem o patrocínio da Nita alimentos. Atualmente o espaço conta com os instrumentos necessários, cadeiras adequadas, ar condicionado, banheiros. Ou seja, basicamente toda a estrutura necessária para que as aulas possam acontecer. Quem quiser conhecer este trabalho de perto pode se dirigir a Praça Iguatemi Martins, s/n, na Vila Nova. As aulas acontecem às segundas e quartas feiras, das 9h às 11 horas e das 14h às 16 horas. Gostou? Quer outras informações sobre a Escola? Então acesse: choroecidadania.org.br . Curta a página no choroecidadania no Instagram/Twitter e ajude a compartilhar essa ideia!

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