Ciências no Esporte

dezembro de 2017

por gerente

Por Bruna Pavanato
Fotos: Tom Leal
Matéria referente a Setembro - Outubro - Novembro - 2015

A ciência já provou ser uma grande parceira dos esportes. Os atletas têm procurado cada vez mais o alto rendimento esportivo. Com a ajuda de pesquisadores e instituições, é possível notar benefícios à saúde, além da conquista de medalhas e títulos. 

Você sabia que o conhecimento científico aplicado aos treinamentos pode ser o detalhe que determina a vitória ou a derrota em uma competição de alto nível? Não é fácil. Para se obter uma conquista, não basta ao atleta apenas dominar as técnicas e ter disciplina nos treinos. É preciso contar com a ajuda da ciência na busca dos melhores e mais inesperados resultados. Muitos nem imaginam o efeito positivo que elas trazem.

FISIOLOGIA DO EXERCÍCIO

O Professor Mestre Dilmar P. Guedes Jr., especialista em Fisiologia do Exercício e Treinamento de Força, conta que entre as várias áreas da ciência do esporte que colaboram para o alto rendimento esportivo, se encontra a Fisiologia do Exercício e a Biomecânica do Esporte.

A Fisiologia do Exercício avalia as respostas (efeito agudo) e os ajustes (efeito crônico) do exercício e da competição no organismo do atleta. Esses dados são obtidos através de testes e instrumentos específicos como a ergoespirometria e a dinamometria isocinética, que medem e avaliam a capacidade cardiorrespiratória e a função muscular do atleta, permitindo monitorar o nível de esforço, controlar a carga de treinamento, a relação exercício-recuperação, as respostas e interações musculares e, assim, evitar situações indesejadas como o “overtraining” ou as lesões.

Já a Biomecânica estuda os movimentos durante os gestos esportivos. Através dela, se pode investigar a cinética (relação das forças que atuam no corpo), como atrito e gravidade e a cinemática (resultantes das forças atuantes), como velocidade, aceleração, direção e sentido. Esse tipo de análise permite avaliar a eficiência de calçados, pisos, vestimentas e outros materiais esportivos, além de fazer uma análise quantitativa e qualitativa do gesto esportivo específico da modalidade, comparando com outros atletas e o aprimorando através do treinamento da técnica.

“A ciência do esporte evoluiu de forma vertiginosa nas últimas décadas. Para alcançar o sucesso no alto rendimento esportivo, o atleta precisa de suporte, de uma equipe multidisciplinar e interdisciplinar. Não há espaço para um único profissional acumular funções, é necessário que especialistas atuem em suas respectivas áreas”, diz.

MEDICINA ORTOMOLECULAR

O Dr. Miguel Naveira, médico formado pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos, pós-graduado em Medicina Esportiva pela UNIFESP, participou de diversos cursos de Medicina Ortomolecular nos Estados Unidos, inclusive como médico visitador do Instituto Linus Pauling na Califórnia. Ele conta que a medicina ortomolecular, ao contrário do que muitas pessoas acham, não se trata de uma abordagem da medicina muito recente. A sua definição foi proposta pelo químico Linus Pauling em 1960 como “utilização de vitaminas, minerais e outros nutrientes na prevenção ou tratamento de doenças”. Portanto, a medicina ortomolecular na sua concepção, não necessariamente é a utilização de suplementos vitamínicos nas suas variadas formas (comprimidos, líquidos, pós, shakes ou injetáveis); pode-se utilizar de uma alimentação equilibrada para a prevenção de diversas patologias.

Mas será que os alimentos, além de prevenirem doenças, podem ajudar o organismo a funcionar melhor? Quais são? Qual o papel da alimentação nesse sentido? Como exemplo, podemos citar nossa disposição física e mental do dia a dia. O Dr. Naveira afirma que a chave para combater a indisposição física e mental está na variedade da sua dieta. O bom funcionamento cerebral e muscular depende de uma utilização adequada de energia dentro da célula. “Para aumentar o estado de alerta e atenção devemos consumir proteínas. Para melhorar o humor, alimentos que contenham ácido fólico e vitamina B6. Já a memória, alimentos que componham colina. Para favorecer o fluxo circulatório, alimentos com óxido nítrico. E claro, as vitaminas B1, B2 e B3 são fundamentais para a energia, pois os alimentos favorecem a entrada e a metabolização da glicose”, explica.

E quanto ao esporte, em especial o de alto rendimento, será que os suplementos nutricionais são benéficos? Todos os nutrientes estão envolvidos com a produção de energia de uma maneira ou de outra, porém alguns nutrientes específicos são especialmente importantes para atletas, cujas taxas de produção de energia podem aumentar significativamente durante o exercício. De uma forma geral, o esporte de alto rendimento ou mesmo a atividade física exaustiva produz os chamados radicais livres, conhecidos como elementos tóxicos gerados a partir do metabolismo do oxigênio e que acarretam danos celulares. Nesse caso, como apoia a base da medicina ortomolecular, devemos bloquear a produção desses radicais livres, através do uso de nutrientes antioxidantes (Beta-Caroteno, vitamina C,  E, B2, selênio, zinco, cobre e glutationa).

“Podemos citar também a utilização de dimetilglicina (DMG), ubiquinona (Coenzima Q-10), ferro e vitamina E para melhora da capacidade aeróbica, ou seja, em exercícios de baixa intensidade e longa duração. No caso de exercícios com carga moderada e longa duração, devemos utilizar aminoácidos de cadeia ramificada (BCAA), hidratação rigorosa, reposição de eletrólitos como magnésio, sódio e potássio e da glicose (hidrato de carbono). Já para os praticantes de exercícios de força, o uso de zinco, aminoácidos como glutamina, leucina e compostos como creatina, HMB e Whey Protein, caseína (slow whey) são importantes. Mas vale lembrar que a utilização de quaisquer recursos nutricionais deve ocorrer após avaliação clínica e laboratorial e que nenhum atleta se forma da noite para o dia. São necessários anos de treinamento, alimentação regrada, suplementação nutricional se necessário e muita disciplina”, finaliza o Dr. Miguel Naveira.

ODONTOLOGIA DO ESPORTE

“A odontologia do esporte estuda a influência da doença bucal na prática esportiva e seu comprometimento no desempenho físico do atleta. Seu principal objetivo é prevenir lesões e melhorar o rendimento esportivo”, explica o Dr. Caio Santos, dentista do esporte do Santos Tsunami (time de futebol americano), especialista em Odontologia do Esporte e membro da Academia Brasileira de Odontologia do Esporte. “Cada modalidade esportiva possui uma particularidade que altera a condição fisiológica e física do atleta. Todos esses elementos devem ser levados em consideração para que o atendimento odontológico seja oferecido de maneira individualizada”, explica.

Doenças de origem bucal, como lesões de cáries, gengivite, periodontite e canais, se não controladas, disseminam bactérias para outras estruturas do nosso corpo, como coração, músculos e articulações. Essas bactérias interagem diretamente nessas estruturas e podem dificultar o processo de reparo muscular, além de causar doenças sérias. “Diversos estudos apontam essa relação, um deles realizado nas categorias de base do FC Barcelona de 2005 a 2008. Durante as três temporadas, a maioria dos atletas que apresentavam alguma infecção bucal também apresentaram lesões musculares e articulares, além de uma recuperação mais lenta. Um exemplo muito marcante foi a morte do jogador de basquete Laurence Scott Young do Clube Internacional de Santos, decorrente de uma infecção generalizada, inicialmente provocada por um problema dentário”, conta Dr. Caio.

 

Ele cita também alguns tópicos baseados na odontologia do esporte que requerem atenção durante a atividade física, iniciando pela respiração, que é um fator primordial para um atleta de alto rendimento. Atletas que respiram pela boca normalmente demonstram características clínicas e comportamentais que influenciam negativamente seu desempenho físico. A hidratação também deve ser observada, pois as bebidas isotônicas contém o pH ácido e causam a desmineralização do esmalte dental, aumentando as chances de sensibilidades e lesões de cáries. Atletas que utilizam suplementação também devem estar mais atentos à saúde bucal, pois a presença do suplemento alimentar no meio bucal potencializa a ação bacteriana. Para os esportes aquáticos, piscinas tratadas de forma inadequada podem prejudicar a saúde dental dos nadadores provocando erosão e manchas irreversíveis nos dentes.

O Dr. Caio ressalta que traumas faciais e dentais são muito frequentes em atletas e que dependendo da modalidade esse risco aumenta consideravelmente. A presença do siso (terceiro molar) soma ainda mais o risco de fraturas mandibulares no esporte de contato, sendo indicado a sua extração. Porémhoje existem dispositivos de proteção como protetores bucais e faciais que auxiliam na prevenção do trauma, e devem ser confeccionados individualmente pelo dentista, pois além de não atrapalharem na fala, respiração e ingestão de líquidos, amortecem e dissipam as forças transmitidas pelo impacto em até 80%. “Outro distúrbio muito comum de se diagnosticar no meio esportivo, é a Disfunção Temporomandibular (DTM) ou problemas nas articulações da mandíbula, onde os atletas efetuam um apertamento dental ou força excessiva entre as arcadas nos momentos de explosão muscular, que resultam em dores, estalos e ruídos na região”, conclui.

Para finalizar, uma das maiores responsabilidades do dentista do esporte é se atentar as substâncias administradas para o atleta, pois os mesmos podem causar doping positivo, como foi o caso da velocista olímpica jamaicana Shelly-Ann Fraser-Pryce, que em 2010 foi acusada de doping por conta do uso de uma substância chamada oxicodona, que na época, teria sido ingerido para combater fortes dores de dente.

FISIOTERAPIA ESPORTIVA

“A fisioterapia esportiva é fundamental para quem quer melhorar seu desempenho no esporte. Uma vertente que está crescendo muito devido aos resultados e é preventiva para o desempenho. Um atleta machucado não treina no nível que poderia, assim deixa de evoluir. O ideal é que façam manutenções da máquina musculoesquelético, assim como fazem nos carros, aumentando sua vida útil”, ensina o fisioterapeuta Wellington Loura.

Através desta consciência, cada vez mais atletas profissionais e amadores têm procurado o profissional para essa finalidade. A intenção é melhorar a qualidade dos movimentos através de uma boa organização das articulações, o que resulta na evolução do desempenho e na diminuição do índice de lesões. “Digo pros meus clientes que a posição ideal permite a potência ideal. Até que eles tenham o intervalo adequado nas suas articulações, eles não terão descoberto  o verdadeiro potencial do seu corpo. Por exemplo, um praticante de corrida com bloqueio ou encurtamentos dos flexores do quadril é o equivalente a dirigir uma Ferrari com o freio de mão puxado", explica.

Após essa reorganização, o treinamento funcional aliado aumenta a biomecânica de movimentos repetidos no dia a dia e nos esportes em geral. “A ideia é melhorar todas as valências físicas através de movimentos funcionais de recrutamento motor universal, trabalhando ao mesmo tempo várias articulações, sempre com ativação dos músculos da região central, exercendo a inteligência corporal”, afirma.

Depois que as lesões acontecem, o fisioterapeuta apresenta técnicas que também evoluíram, trazendo resultados mais rápidos como, quando indicado, o Dry Needling, que é o agulhamento sobre os pontos gatilhos, resultando na diminuição da dor e ganho da amplitude de movimento de forma rápida. “Para haver desempenho, deve haver manutenção”, finaliza.

 PERSONAL TRAINER

Devido a grande importância que o esporte vem adquirindo, a busca incessante para alcançar o pódio em qualquer modalidade tem aumentado, de acordo com a Personal Trainer Carol Macchione.  A competição é o momento de o atleta demonstrar sua qualidade, ou seja, mostrar o resultado do esforço empenhado ao longo do treinamento.

Impulsionado pela grande expansão do esporte, os atletas buscam ajuda nos campos de intervenção e áreas de conhecimento, onde muitos profissionais da saúde, principalmente os educadores físicos, procuram aperfeiçoamento técnico para maximizar e potencializar os objetivos dos atletas. “Cabe ao personal trainer avaliar de forma minuciosa o atleta, desde avaliações físicas ao feedback. As atividades serão propostas de acordo com a biomecânica do esportista e do seu objetivo”, afirma Carol.

É visível que o treinamento funcional está levando os atletas de alto nível à melhora do desempenho. Pois neles são trabalhadas as habilidades funcionais, como agachar, puxar, empurrar, girar, avançar, saltar e levantar, operando uma maneira global para que a musculatura se adapte à biomecânica realizada na modalidade esportiva respectiva. “Visando a performance  e a qualidade de vida do atleta, os exercícios propostos levam em conta toda estrutura física, para que sejam prevenidas lesões musculoesqueléticas. No treinamento funcional levamos a técnica para a preparação física”, ressalta.

São repetidos os movimentos realizados na modalidade, de forma que o atleta trabalhe todas as valências físicas: força, resistência, coordenação, potência, velocidade, flexibilidade, agilidade, equilíbrio, precisão e o core (estabilizadores da coluna vertebral). São utilizados alguns materiais básicos, como elásticos, bola suíça, bola feijão, faixas, cones, medicine ball, bancos de salto, aparelhos de musculação, pesos livres e alguns equipamentos do Pilates (molas). Este tipo de treinamento está sendo citado como um dos mais eficazes para o rendimento do atleta, por isso a procura aumenta em busca de melhores resultados.

NUTRICIONISTA

“Quando comecei a trabalhar com nutrição esportiva, não imaginava a mudança que a alimentação causaria na vida dos meus atletas. Minha primeira experiência foi com um time feminino de vôlei profissional e no nosso primeiro encontro percebi que havia muito trabalho a ser feito. Foi incrível como apenas alguns ajustes na hidratação das atletas melhoraram o rendimento durante o treino”, conta a nutricionista Giovana Cano. Hoje, ela faz o acompanhamento de 34 atletas profissionais, principalmente de artes marciais, crossfit e surf. “Durante as consultas é muito gratificante ver a evolução física e a consciência nutricional que o atleta adquiriu. Muito mais do que o rendimento, trabalhamos a saúde do indivíduo”, afirma.

Giovana explica que através da alimentação conseguimos, por exemplo, melhorar a fadiga pós-treino, câimbras, fortalecer o sistema imunológico e modificar a composição corporal aumentando o ganho de massa magra e a perda de gordura. “Esses fatores são essenciais para uma melhora no rendimento do atleta. Faço questão de acompanhar toda a rotina de treinamento, ir às competições sempre que possível e incentivar os atletas a conquistarem seus objetivos. O mérito é sempre deles, pois nada acontece se eles não seguirem o plano nutricional e a suplementação proposta, mas a sensação de dever cumprido é de todos os envolvidos. Junto com o profissional educador físico, fisioterapeuta, médico do esporte e toda a equipe multidisciplinar, o trabalho se transforma e se completa”, finaliza.

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