Arte 013

dezembro de 2017

por gerente

Por Evelyn Cheida
Fotos: Tom Leal
Matéria referente a Setembro - Outubro - Novembro - 2015

Nossa região sempre foi abençoada por grandes talentos. A Revista Zerotreze conversou com quatro artistas que espalham arte e cultura pela Baixada, deixando seus cenários ainda mais lindos. Grafitti, ilustração, escultura, pintura, não falta estilo e técnica na genialidade de Marcelo Mordenti,
Leandro Shesko, Renato De Lone e Aldo Ribeiro

Nada pode ser mais deprê do que uma vida sem arte. Não importa qual o meio de expressão, uma cidade sem arte é triste e vazia. Ela nos desperta o olhar, a interpretação, a análise, o sonho. Ver formas e cores tão belas e distintas faz a diferença no cotidiano de correria em que vivemos. Vindo do movimento de pichação, o Grafitti é umas das formas artísticas mais populares nos dias de hoje. Saiu da marginalidade para colorir ruas, muros, esculturas e qualquer espaço urbano que peça por mais vida.

Leandro Shesko é um dos maiores grafiteiros de Santos. Desenha desde a infância, motivado por um primo mais velho. Cresceu fascinado por quadrinhos, desenho animado e vídeo game. Aos 12 anos passou a desenhar suas atividades e interesses, como o Skate e o Surf e aos 13 já criava personagens do Skate e pichava o resto da folha. “Senti a semelhança com o tal do Graffiti, que até então não despertava muito meu interesse. Fui pesquisar e descobri que a arte é um dos elementos que compõem a cultura Hip Hop, fiquei entusiasmado com todo esse universo e iniciei meus experimentos junto a alguns amigos que acabei influenciando”, relata. Shesko começou fazendo letras e personagens estilizados, ao molde tradicional do Graffiti norte americano.

“Com a busca de novas técnicas e possibilidades experimentei pintura em telas, customização, ilustração para meio editorial, têxtil e audiovisual, tatuagem, encarei trabalhos mais comerciais e passei a lecionar em escolas, workshops e oficinas. Fiz um curso de artes plásticas, me formei em design gráfico e fiz MBA em marketing estratégico. Isso tudo me fez criar uma estética específica em minhas obras, trazendo um pouco de cada uma das minhas referências, com um know-how de direção de arte”, afirma.

Hoje Shesko se divide entre murais de grande porte, interiores, oficinas, customizações, ilustrações e pinturas sob encomenda. “Venho organizando meu ateliê para receber visitantes, promover oficinas e encontros futuramente”. Algumas de suas obras tiveram grande repercussão, como o recente mural gigante realizado para o 13º Festival Curta Santos, na avenida João Pessoa, no centro.

A fachada do restaurante Dboa Japão, a fachada e os contentores de lixo do bar Baccará, a fachada e exposição realizada na loja Light Design, o mural na torre do emissário submarino, o interior da agência de viagens Booking, a turnê com o Charlie Brown Jr. e o painel para o filme O Magnata, também são trabalhos do artista de grande reconhecimento do público. “Tenho planos de expandir minha arte internacionalmente, realizar mais obras de grande porte e fortalecer minha carreira como ilustrador e artista plástico. Quero viajar cada vez mais, unindo diversão e trabalho, conhecendo novos lugares, espalhando meus desenhos por aí”, promete.

Artista plástico veterano, o vicentino Marcelo Mordenti é considerado um dos melhores tatuadores do Brasil. Hoje quer unir sua paixão pela pintura a sua expertise em tatuagem e trabalhar nos dois mercados. Seu interesse por tattoo começou cedo, ao ver marinheiros tatuados. Depois, na adolescência, os surfistas também adotaram a prática de tatuar a pele. “A tatuagem no Brasil começou em Santos, quando o dinamarquês Lucky desembarcou no porto em 1959. Lembro da música que a Baby Consuelo cantava, ‘menino do rio, calor que provoca arrepio, dragão tatuado no braço’, tudo isso me influenciou, eu era um menino apaixonado por arte”, confessa.

Marcelo já desenhava acima da média para uma criança. “Eu desenhava na pele dos meus amigos com canetinha para simular tatuagem. Aos 15 resolvi fazer a primeira de verdade. Vi dois hippies tatuando na praia e pedi pra eles me ensinarem. Agulhas de miçanga, tinta nankin... Desenhei um cavalo marinho com caneta em um amigo meu e tatuei por cima. Depois fiz em mim e comecei a fazer nos outros. Fiz uma máquina de tatuagem com um motor de depilador feminino, copiando de um amigo”, revela.

Paralelamente à tatuagem, Mordenti sempre desenhou e pintou. Fã de ilustração e realismo fantástico, se mantém ligado nas tendências dos grandes artistas. Nos anos 80, quando já tatuava profissionalmente, levou um baque com as notícias sobre a AIDS, que podia ser transmitida pelas agulhas. “Naquela época ninguém usava luva, nem dentista. As crianças faziam fila para tomar vacina, todos com a mesma agulha. Tinha muita falta de informação, me assustei e me afastei da tattoo. Aos 18 anos me chamaram para trabalhar em uma escola de inglês, ilustrando livros didáticos. Foi no CCBEU que tive meu primeiro contato com uma galeria de arte. Eles promoviam uma exposição com artistas de todo o país, e, aos 18 anos, sem nunca ter estudado arte, ganhei uma menção honrosa, no meu primeiro quadro com moldura na vida”, conta. “Tive uma resposta do meio artístico de que podia mesmo me tornar um profissional”. 

Quando seus pais se mudaram para São Paulo, Mordenti aproveitou para fazer cursos de publicidade, pintura em giz pastel e assim montar um portfólio. Em 1996 decidiu voltar a viver em São Vicente e voltar a tatuar. “Meus desenhos começaram a ser comercializados, passei a ter reconhecimento pelo meu trabalho e retorno financeiro. Foi assim que a tatuagem se tornou minha principal atividade”.

Quem trabalha com criatividade, normalmente não gosta de ficar preso a horários. “Com tatuagem tenho agenda cheia, horário marcado, tenho que estar bem disposto para criar algo na hora, pois é isso que o cliente espera de mim. Recebo gente de todo o Brasil e do exterior também. Senti falta da liberdade de criação que a pintura me dá e hoje vejo pelo feedback de vários profissionais que admiro, que tenho plenas condições de entrar nesse mercado”, diz.

“A pressão de ter que estar pronto naquele determinado momento me cansou um pouco. Quero ter mais tempo para curtir meus filhos e a liberdade de pintar na hora que eu realmente estiver inspirado. Quero extravasar minha compulsão criativa e a pintura me dá toda a liberdade para fazer o que eu quiser. Na tatuagem, o trabalho é por encomenda, o cliente chega com uma ideia e eu crio o desenho no meu estilo. A arte é algo muito orgânico. A pintura favorece muito meu fluxo criativo”, conclui. Ele acaba de lançar um espaço diferenciado em Santos, com 400 m², três salas de tattoo - onde pela primeira vez vai trabalhar com outros artistas -, uma galeria de arte, um café e um espaço para pintar.

O cenógrafo e publicitário Mauriomar Cid convidou Mordenti para o projeto de réplicas da mureta de Santos, realizado por 15 artistas. A réplica tem 1,60 m x 1,60 m e será exposta nos jardins da praia de Santos. “Participei do Art Battle em São Paulo, um evento trazido do Canadá, onde os artistas têm 20 minutos para criar uma pintura e quem elege o campeão é o público presente. Tive a felicidade de ser vencedor em meio a tantos artistas de alto nível”, finaliza.

Renato De Lone é um artista versátil, que também vai participar da exposição das muretas de Santos. Pintor de quadros e ilustrações, mistura tintas, pigmentos e técnicas para criar as suas próprias. Também deu suas primeiras pinceladas na infância, aos cinco anos. “Logo cedo entendi que a arte era algo valioso, seguia caminhos tortuosos, era contestável, talvez algo proibido, talvez algo elogiado”, afirma na poesia. “Passei minha adolescência entre a música e os desenhos nas capas dos cadernos dos amigos, nas folhas soltas brancas, nas aulas de desenho de perspectiva e de desenho mecânico”, conta.

“Sempre admirei o surrealismo e as obras clássicas, bem acabadas, cheias de detalhes, bem longe do abstrato e das obras conceituais. O caminho que segui na música me abriu portas para o design e propaganda, e com isso veio um estilo, um caminho pop arrojado, onde misturei várias influências e técnicas que resultaram na minha arte, na minha forma de expressão. Penso nela como uma fase da vida, em que brinco com cores, traços e pensamentos que preenchem telas em branco, que contam trechos de histórias, que retratam pessoas, que ilustram ambientes, que projetam emoções. Fases passam, mas a arte continua. De algum jeito ou de outro, sempre”, diz o inspirado artista.

De Lone retomou a carreira após quase dez anos longe das telas e conseguiu criar um jeito diferente de mostrar o rosto de celebridades, como Taís Araújo e Elvis Presley. “Sempre fiz quadros hiperrealistas, que pareciam fotografias”. Porém suas obras caíram em desvalorização com a utilização das técnicas digitais. "Achavam que era computação gráfica", comenta De Lone, que chegou a ganhar prêmios e fez trabalhos para revistas e eventos durante a década de 90.

Há alguns anos, ele voltou para o mercado da arte depois que encontrou uma nova maneira de exibir seu talento. "Fiquei parado e pesquisei uma nova técnica. Eu molho a tela, faço um esboço e trabalho com a tela úmida. As formas são criadas com o controle da mancha da tinta. Eu utilizo a mesma técnica da aquarela, mas acrescento os meus detalhes", conta. Ele usa ainda o secador de cabelos para fixar a tinta na tela. "Ele funciona como instrumento para ter o controle da mancha. Não dá pra esperar secar sozinho. É como se fosse um segundo pincel", comenta. Depois, ele finaliza a obra com traços pretos a seu gosto.

Renato expôs recentemente a coleção de obras “Amores Urbanos”, onde foi possível conhecer e admirar a técnica criada pelo artista, watercolor sobre tela, na qual mistura a tinta acrílica com a aquarela, o que provoca um colorido muito especial. De Lone usa a técnica de aerografia para fazer fundos desfocados.

Aldo Ribeiro, artista plástico do Guarujá, desenvolve um trabalho que prioriza a preservação do meio ambiente e a sustentabilidade. Cria esculturas de animais marinhos, aves, cavalos e abstratos, usando peças de metal reciclado, sua especialidade. Peças de moto, carro e sucatas industriais também compõem as obras. “Uno o positivo ao negativo. Meu objetivo é criar obras que façam o público interagir com os componentes que usados na sua construção”, avalia.

Aldo também começou na infância, criando esculturas e seus próprios brinquedos, principalmente de madeira e vidro. Com metal, o artista já trabalha há dez anos. “Às vezes crio livremente e outras por encomenda. No momento estou trabalhando em uma escultura de um guitarrista, para um bar em Santo André”. Aldo espalhou cerca de 70 obras de arte em três praças próximas ao seu ateliê, na Praia do Pernambuco no Guarujá, com telefone para contato caso alguém se interesse. Nas praças as peças ficam expostas para venda ou locação para eventos. Impossível não se encantar com o trabalho ao passar pelo Buco. Valorize nossos artistas!

Conheça mais do trabalho dos artistas Zerotreze:

Shesko:
shesko.com
Facebook / Instagram: Leandro Shesko

Mordenti:
Rua da Paz, 49 – Santos
Facebook: Marcelo Mordenti
Instagram: Mordenti Tattoo

Aldo Ribeiro:
Ateliê Art Etc e Tal
Estrada do Pernambuco, 1496 - Guarujá
(13) 99753-3601
Facebook: Artista Aldo Ribeiro Guarujá

Renato De Lone:
www.rdelonestudio.com.br

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